Dr. Eliseu Auth

ARTIGO

Um instinto da tirania

Eliseu Auth 27/01/2026 00H02

Jornal Ilustrado - Um instinto da tirania

Quando me ponho contra qualquer tipo de imperialismo e dominação, coisa própria das tiranias, sejam elas de direita ou esquerda, tenho em mente a convivência humana. No começo, quando os homens viviam em grupos, clãs, tribos e hordas, nossos antepassados estavam sob o domínio do mais forte. Com o passar do tempo, a humanidade se organizou e se civilizou. Surgiram Nações, Estados e Instituições, sob a premissa maior de uma ordem jurídica com leis, regras e ordenamentos. Viram que precisavam de paz na convivência entre povos e nações. Experiências dolorosas, guerras sangrentas de dominação e instintos de superioridade, fizeram parir essa conjuntura mundial, onde deveria valer a soberania das nações e o respeito mútuo entre todos. Vieram a ONU (Organização das Nações Unidas), o multilateralismo para um comércio justo, e tudo o mais que foi garantindo uma convivência civilizada.

Essa trajetória, como sino que tange, deve estar martelando na alma de quantos percebem o perigo que corremos com uma possível volta à barbárie, sinalizada pela ambição de Trump em anexar a Groelândia. Já fez o que fez na Venezuela, de olho no petróleo, nem se importando com o regime que dizia combater. A mera disposição de tomar a Groelândia é um claro discurso de superioridade, em razão das armas que tem. Vem daí esse doído sentimento de angústia que se apossa de nós e de todos os que querem viver em paz.

Estamos diante da dominação, própria das tiranias e marca do extremismo que só pode seduzir incautos, néscios, ou vassalos. A história deveria ser consultada por essa gente. Lá atrás, o estrategista militar romano Vegécio já advertia: “Si vis pacem, para bellum” (se queres a paz, prepara a guerra). O sentido era impor respeito e dissuadir a sanha de ditadores ambiciosos. Falei da história. Tem demais, mas me detenho em dois exemplos de dominação. Castro Alves, no poema “Orgulhosa”, refere Napoleão como grande. Sim, foi grande estrategista militar, mas não conteve o instinto de dominação quando quis sufocar a Inglaterra, obrigando o czar Alexandre I, a continuar bloqueando o vizinho. Aí, só por isso, invadiu a gélida Rússia com um exército de 600 mil homens e 180 mil cavalos, segundo o historiador Gilberto Cotrim. Foi um desastre. Só 30 mil conseguiram regressar à França. Os outros morreram em batalhas, frio e fome. A derrota foi o começo do seu fim. O outro exemplo da história é do tenebroso nazista Adolph Hitler que queria o mundo aos pés, na crença de que sua raça ariana era superior. Vimos o fim que deu. O ilustrado leitor há de concluir comigo que dominar os outros é um instinto da tirania.

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).