DOAÇÃO DE ÓRGÃOS

Diagnosticada com ceratocone desde os 15 anos, a técnica de enfermagem Luciana Silva dos Santos, de 34 anos, aguarda um transplante de córnea para melhorar a visão e a qualidade de vida. Moradora de Umuarama e colaboradora do Hospital Uopeccan há dez anos, ela conseguiu entrar na fila em maio deste ano, após cerca de seis anos buscando acesso ao procedimento.
Luciana contou que o medo do transplante contribuiu para adiar a procura pelo tratamento. Inicialmente, ela fazia acompanhamento pela rede particular. Depois, buscou atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e passou a realizar consultas em Curitiba.
“Eu tinha medo, como acredito que muitas pessoas têm. Fui adiando até perceber que precisava buscar esse tratamento”, relatou.
O ceratocone é uma doença ocular progressiva e não inflamatória que afeta a córnea. No caso de Luciana, a condição está em estágio avançado. Segundo ela, óculos e lentes de contato já não são suficientes para corrigir a dificuldade visual, e o transplante foi indicado como alternativa de tratamento.
“Tenho menos de 20% de visão, e o transplante foi a alternativa indicada para o meu caso”, afirmou.
Neste ano, Luciana iniciou o acompanhamento no Hospital de Clínicas, em Curitiba, onde passou por exames e avaliações antes de ingressar na fila. As viagens à capital continuam, com consultas aproximadamente a cada três meses.
Ao consultar sua posição, ela disse ter encontrado uma colocação acima de 1.900. Enquanto aguarda, mantém a rotina de trabalho na Central de Material e Esterilização (CME) do Uopeccan, onde atua na preparação e esterilização de instrumentos utilizados nos procedimentos hospitalares.
Casada e mãe de um menino de 12 anos, Luciana relata dificuldades para enxergar de longe e identificar objetos pequenos. Ela trabalha como pessoa com deficiência em razão da condição visual e utiliza lentes de contato para auxiliar a visão.
Dentro do hospital, o contato com a equipe de doação também alimenta a expectativa pelo transplante. Quando vê os materiais utilizados no transporte dos tecidos, pensa nas pessoas que poderão ser atendidas.
“Penso que pelo menos a fila está andando. Estou na expectativa. Espero ter uma qualidade de vida melhor, porque isso vai me ajudar muito”, disse.
A espera também mudou sua percepção sobre a doação. “A gente só entende de verdade a importância quando precisa ou quando alguém da família precisa”, declarou.

Identificação de doadores e acolhimento
O supervisor da UTI e coordenador da equipe de doação de órgãos do Uopeccan, Willyan Ferrer Maciel, explicou que o hospital não realiza transplantes. A atuação da unidade está voltada à identificação e ao acompanhamento de potenciais doadores, em articulação com as estruturas regional e estadual de transplantes.
Segundo ele, apesar das captações realizadas no Paraná, ainda há uma demanda expressiva por córneas. O tratamento de Luciana é acompanhado em Curitiba, pela rede responsável pelo atendimento aos pacientes que aguardam transplante.
No Uopeccan, a busca por potenciais doadores ocorre diariamente, principalmente na UTI. O trabalho envolve avaliação dos pacientes, triagem de exames e apoio aos familiares. A equipe reúne 12 profissionais, entre médicos, enfermeiros, psicólogo e assistente social.
Para Willyan, que atua na área há dez anos, o acolhimento deve orientar todo o processo. “Nosso objetivo principal é acolher a família”, afirmou. Segundo ele, a confiança construída durante o atendimento contribui para que os familiares compreendam o diagnóstico e possam decidir sobre a doação.
O coordenador informou que o hospital registra, em média, de seis a sete doadores de órgãos sólidos por ano. Também relatou taxas de conversão de potenciais doadores em doações efetivas de 85% para órgãos sólidos e de 100% para córneas, sem especificar o período de referência desses percentuais.
Informação para esclarecer dúvidas
Willyan apontou a desinformação como um dos principais obstáculos à doação. Segundo ele, relatos incorretos sobre morte encefálica e conteúdos que associam transplantes ao tráfico de órgãos podem provocar medo nas famílias.
O profissional explicou que parte do trabalho consiste em ajudar os familiares a compreender o diagnóstico de morte encefálica, especialmente quando o coração continua batendo e a respiração é mantida por aparelhos.
“Estamos ali para explicar o diagnóstico e acompanhar a família durante todo o processo”, disse.
A orientação, conforme o coordenador, é conversar sobre o assunto em família e buscar esclarecimentos com profissionais de saúde. Quem tiver dúvidas também pode procurar o hospital e solicitar atendimento à equipe de doação.
