ARTIGO

Faz alguns dias, o escritor umuaramense Sérgio Vercezi lançou o livro “Vida dos Bichos”, evocando imagens raras da vida selvagem. A razão do livro, segundo ele, é a conscientização ambiental. Claro que gostei, em especial porque sou ambientalista. Sérgio é mais um que briga pela natureza.
A verdade é que conhecemos muito pouco o mundo dos bichos. Alguns parecem falar com a gente, outros permanecem uma incógnita, muito embora vários deles mostrem claramente, sinais de inteligência. Seria por acaso a obra do João de Barro que faz sua casa, atento aos pontos cardeais e proteção contra ventos e chuvas? E as abelhas com seus favos de mel que armazenam e depositam em quadrados de cera milimétricamente iguais? Não há intelecto e engenharia nisso? E, quando voam longe, em busca da matéria prima para o mel, retornam ao enxame, sem bússola nem telescópio ou coisa parecida? Seria só natureza inteligente? Então, se há inteligência, estamos diante de algo mais que só matéria. Minha intrigância vai às formigas cortadeiras. Quando se cruzam no caminho que formam, carregadas de folhas ou não, páram, uma de frente com a outra, como se fizessem saudação ou trocassem idéias entre si.
Guardo, nos meus alfarrábios, o poema de Alcidi Vargas, “Que diacho, eu gostava do meu cusco”, que meu irmão Edio, lá do Rio Grande amado, me mandou em letras bonitas e escritas à mão. Nele, o autor começa assim: “Entendo…envelheci entendendo, bicho não tem alma eu sei bem, mas será que vivente tem?” Depois conta uma história emocionante de carinho entre ele e um guaipeca amarelo, cachorro sem raça, mas fiel companheiro nas lides do campo e amigo inseparável a quem se afeiçoou. A história é longa, mas terminou com o guaipeca atirado e morto pelo filho do patrão. É que o guaipeca namorava a cadelinha do patrão, argumento raso, fútil e mesquinho que deu num entrevêro entre o atirador desalmado e o dono do guaipeca baleado, cujo desfecho, se foi trágico, não releva contar aqui.
Se a metafísica, segundo Kant, trabalha com fenômenos e não alcança a essência das coisas, deduzo que a ciência pouco conhece do mundo dos bichos que está em outra dimensão. Algo me lembra o filósofo jesuíta Teilhard de Chardin que cogita uma possível consciência em toda a matéria. Certo ou não, ainda não conseguimos nos comunicar com o reino animal, mas nele há sinais claros e incontroversos de inteligência, organização, vida gregária e interação que dão sentido ao título que fiz: Será que bicho tem alma?
(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).