ARTIGO

Sei. O tempo não existe em si e por si. É termo abstrato e tem a ver com a medida da existência de seres e coisas que se transformam e passam. Diz a metafísica kantiana, e concordo que o nosso conhecimento só alcança os fenômenos e não a realidade em si. Não vejo o tempo, mas enxergo seres e coisas que existem e se transformam num processo implacável de “vir a ser”, onde “tudo passa e nada fica”, já ensinado em Éfeso, pelo velho Heráclito.
Ainda assim dizemos que o tempo é senhor da razão. Queremos dizer que nos amadurece, cria juízo em nós e faz entender nosso papel nesta pobre existência. Se ele não passa, nós é que passamos, junto com tudo o que existe.
Santo Agostinho, grande filósofo e pensador católico, já perguntava em suas “Confissões”: “O que é o tempo? Quando quero explicá-lo, não encontro explicação. Se eu disser que o tempo é a passagem do passado para o presente e do presente para o futuro, terei que perguntar: Como pode o tempo passar? Como sei que ele passa?O que é um tempo passado? Onde ele está? O que é um tempo futuro? Onde está?(…) (in Convite à Filosofia – Marilena Chauí – pág. 95 – 11ª ed. Ática).
Saio dessa áspera discussão e concluo do meu jeito caboclo que o tempo é medida de existência, seja da nossa em que pensamos e agimos, seja dos fenômenos ao redor. Tudo vai passando. Olho para a humanidade que descortina séculos de chumbo, escravidão, feudalismo e teocracias. Ditaduras e tiranias se sucedendo até o iluminismo. Ainda assim, depois dele, tivemos que aturar Hitler, Mussolini, nazismo, fascismo e comunismo. São tempos.
Lá atrás, Cícero bradou “Oh Tempos!” para atacar Catilina que conspirava contra a República. Se reencarnasse aqui, atacaria as facções e o crime organizado. Gritaria “Oh tempos!” diante da prisão do Presidente Assembléia legislativa do Rio de Janeiro, por possíveis ligações´com o crime, segundo investigações da Polícia Federal. Lembrem que a extrema direita queria alijar, sufocar e tirar das investigações a nossa eficiente e preparada polícia federal, no projeto de lei das facções. Qual seria a razão disso? Oh tempos!
Há barbaridades neste tempo. Lá na marginal Tietê, um sujeito arrastou a ex-companheira pelo asfalto, em crueldade sem dó nem piedade que decepou suas pernas. Enquanto isso, as redes sociais vertem ódio, “fake news”. Não bastasse tanto desvario, há religiões que deveriam pregar amor ao próximo, virando palanque político, em nome do “Senhor Deus dos exércitos”. Já não é o Deus do amor e origem de todo o bem, como o catecismo nos ensinou. O tempo já não parece ser o senhor da razão. Oh tempos!
(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).