ARTIGO

É tempo de declarar o Imposto de Renda. Por isso, repito este artigo que adaptei do jornal “Fenacom” de São Paulo. Quem tem filhos ou sonha tê-los, deve atentar para ele: “O pai moderno corre em busca do futuro e esquece o presente. Quer amealhar bens para o futuro dos filhos, mas fica ausente das suas vidas. Cada nova linha acrescida no imposto de renda, é fruto de muito trabalho. Lotes, casas, sítios, automóvel do ano, custou dias, semanas e meses de luta. Mas, ele está fazendo o futuro da família… Se partir de repente, já fez sua missão e não vai deixá-la desamparada. Para aumentar os bens, não se contenta com um emprego só. É preciso ter dois, três, vender férias, levar serviço para casa, viajar e fazer reuniões. Esse homem esquece que a verdadeira declaração de bens, o valor que conta, está em outra página do formulário do Imposto de Renda. Está nas linhas quase escondidas onde se lê: “Relação de dependentes”, pessoas a quem deveria dedicar melhor seu tempo.
Os filhos, novos demais, não estão interessados em propriedades e aumento de renda. Só querem um pai para conviver, dialogar e brincar. Os anos passam, os meninos crescem e o pai nem percebe. Entregou-se de tal forma à construção do futuro, que não participou de suas pequenas realizações do presente. Não os levou ao colégio, nunca foi a uma festa infantil e não viu a coroação de sua filha como rainha da primavera. Há filhos órfãos de pais vivos. O pai para um lado, a mãe para outro: a família desintegrada. Depois de uma dramática experiência pessoal e familiar, diz o pai que não há tempo melhor empregado que o dedicado aos filhos. Agora estou aqui com o resultado do meu esforço: “Construí o futuro e não sei o que fazer dele, depois da perda de Luiz Otávio e Priscila. Que vale o que juntei, se meus filhos não estão mais aqui? Se o resultado de 30 anos de trabalho fosse consumido e não restasse mais que cinzas, isso não teria importância. Os valores mudaram e o dinheiro de que vale agora? Ele não foi capaz de comprar a cura do meu filho amado que se drogou e morreu. Nem evitou a fuga de minha filha querida que saiu de casa, se prostituiu e dela não tenho mais notícias. Eu trocaria todas as linhas da declaração de bens por duas únicas que precisei retirar da relação de dependentes: os nomes de Luiz Otávio e Priscila. Meu filho morreu e minha filha sumiu de casa, um mês antes de completar 15 anos.”
Sinto que tem lágrimas nos olhos de todos nós que amamos nossos filhos. Que nos sirva de lição esse drama do pai moderno e seu Imposto de Renda.
(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).