Dr. Eliseu Auth

Eliseu Auth

O pai moderno e o imposto de renda

07/04/2025 19H06

Jornal Ilustrado - O pai moderno e o imposto de renda

                             

    Li no FENACON e adapto. De novo porque vale a pena. “O pai moderno passa a vida correndo em busca do futuro e esquece o presente. Com orgulho, a cada ano declara o imposto de renda. Cada nova linha acrescida foi produto de muito trabalho. Lotes, casas, apartamentos, casa na praia, automóvel do ano e sítio. Tudo custou dias, semanas e meses de luta. Mas, ele está cuidando do futuro da família. Se partir de repente, não vai deixá-la desamparada. Para aumentar os bens ele não se contenta com um emprego só. Vende parte das férias e leva serviço para casa. É um tal de viajar, almoçar fora, fazer reuniões, preencher a agenda para ser um executivo dinâmico. Esse homem esquece que a verdadeira declaração de bens que conta está em outra página do formulário de imposto de renda. Está nas linhas onde se lê: “Relação de dependentes”, pessoas a quem deve dedicar melhor o seu tempo.

    Os filhos, novos demais, não estão interessados em propriedades e renda. Só querem um pai para conviver, dialogar e brincar. Os anos passam, os meninos crescem e o pai nem percebe. Entregou-se de tal forma à construção do futuro que nem participou de suas pequenas realizações.

Não os levou ao colégio, nunca foi a uma festa infantil, não teve tempo para assistir à coroação de sua filha como rainha da primavera. Há filhos órfãos de pais vivos. Os pais, cada um para seu lado em família desintegrada. Depois de uma experiência pessoal e familiar dramática diz o pai: não há tempo melhor aplicado que aquele dedicado aos filhos.

Agora estou aqui. Construí o futuro e não sei o que fazer com ele depois da perda de meus filhos Luiz Otávio e Priscila. De que vale o que juntei se meus filhos não estão mais aqui? Se o resultado de trinta anos fosse consumido agora por um incêndio, isso não teria importância alguma.

Os valores mudaram e o dinheiro passou a ser o mínimo. Ele não foi capaz de comprar a cura do meu filho amado que se drogou e morreu. Também não foi capaz de evitar a fuga de minha filha querida que saiu de casa, se prostituiu e dela não tenho mais notícias. De que serve o dinheiro? Eu trocaria todas as linhas da declaração de bens para ter de volta meus filhos Luiz Otávio e Priscila”. Vou terminar porque meus olhos já encheram de lágrimas. Também sofro com o pai moderno e o imposto de renda.

( é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).