ARTIGO

O meu amarelado Aurélio nem registra o adjetivo instigante que julgo apropriado para Schindler. Ele faz mergulhar num ser humano aparentemente contraditório, mas incrível. Feito luz nas trevas do nazismo, esse personagem está nos “Titãs da História”, de Simon Sebag Montefiore que me inspira. Ali, faz pensar, adverte, ensina e mostra um ser que encanta por sua humanidade.
Schindler nasceu na antiga Tchecoslováquia em 1908. Foi um empresário extravagante, astuto, beberrão e bem sucedido. Quando os alemães invadiram seu país, desconfiado das intenções nazistas, para assegurar influência, vez e voz, filiou-se ao partido nazista. Não deu outra: Logo testemunhou a barbárie no gueto de Cracóvia, perto da sua fábrica que empregava judeus perseguidos, e destinados para guetos e o extermínio em Aushwitz. Aí o visionário entrou em campo, usou sua credencial de filiado para salvar mais de mil judeus que trabalhavam com ele. Diz Montefiore que, ao receber Oficiais da Gestapo que exigiam a entrega de seus tralhadores judeus, tratou-os como camarada, serviu-lhes bebidas e os embebedou. Resultado: saíram sem cumprir a missão.
No andar dos abusos nazistas, Schindler foi preso duas vezes, por adquirir suprimentos do mercado negro para os judeus, mas sua afabilidade, diplomacia e gordos subornos, lhe devolveram liberdade. “O que fosse preciso fazer para salvar vidas, ele fazia, disse o advogado de Schindler, mais tarde. Ele manipulava extraordinariamente bem o sistema” (Op. cit. pág. 505).
De outra feita, quando a Gestapo exigiu que 300 de suas operárias judias fossem mandadas para Auschwitz, de novo, Schindler livrou-as do suplício, pagando polpuda propina aos fiscais do nazismo. Consta que passsava as noites no escritório, pronto para agir, caso os fiscais da Gestapo aparecessem.
Quando perguntado sobre seu rompimento com os nazistas, declarou que era porque matavam inocentes. Por isso trabalhou contra eles. Só queria salvar vidas. Essa obstinação deixou-o pobre quando a guerra terminou. Levou toda a sua fortuna, ao ponto de ter que vender as jóias da esposa. Seu casamento com a resignada Emilie terminou em 1957. “Ele deu tudo de si aos judeus”, teria ela desabafado, mais tarde. “E para mim, nada”. (Op. cit. pág. 506).
Concluo eu: Cruéis e malditas são todas as ditaduras, mas o nazismo por todos os ângulos, é uma síntese do próprio mal. Se os extremistas também nascem gente com alma e sentimentos como nós, reflitam sobre suas escolhas. Talvez, um dia acordem e aprendam com o instigante Oskar Schindler.
(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).