Dr. Eliseu Auth

Dr. Eliseu Auth

O Anjo de Varsóvia

Eliseu Auth 02/09/2025 00H01

Jornal Ilustrado - O Anjo de Varsóvia

Quanto mais a gente se debruça sobre a segunda guerra mundial e tenta entender seus horrores, mais fica assustado com o nível da brutalização da tirania nazista. Não havia limites para a maldade. Pessoas, a princípio normais, depois de abraçar a causa nazista, viraram símbolos de sadismo e crueldade. É o caso de Josef Mengele, médico que fazia experimentos em olhos de crianças, cegando muitas delas e matando outras.

Na toada malsã dos que tocavam os campos de concentração havia os inconformados com a barbárie, pessoas normais e com sentimentos como todos nós, mas que não poderiam ser expostos, sob pena de traição ao regime.

A história que trago para refletir aconteceu na Polônia, país ordeiro e profundamente religioso, invadido e subjugado por Adolph Hitler, em 1939. Lá ficaram marcas da crueldade nos complexos de Auschwitz-Birkenau, Chelmo, Belzec, Sobibor, Treblinka e Majdanec. Embora ninguém saiba o número certo, estima-se que mais de três milhões e meio de pessoas, na maioria judeus, tenham sido assassinadas nas câmaras de gás ali instaladas. Eram pessoas normais, ordeiras e com filhos que lutavam pela vida como nós. A culpa: ser judeu, cigano, homossexual, prisioneiro ou adversário do Führer.

Entre os inconformados com o horror está Irena Sendler, uma enfermeira polonesa que salvou mais de 2.500 crianças que arrancou do gueto de Varsóvia onde os nazistas amontoavam os judeus que aprisionavam. Quando conseguia tirar as crianças de lá, escondia-as em sacolas, maletas, baldes e cestos de lixo. Como tinha livre trânsito nos campos de concentração, distribuía comida e medicamentos à população confinada. Consta que Irena anotava o nome das famílias das crianças e enterrava em lugar seguro para que, tão logo possível, pudessem retornar às suas casas. Muito religiosa, ela usava conventos e orfanatos católicos como “rotas” para salvar as crianças.

Em 1943, Irena foi presa pela Gestapo, torturada e condenada à morte, mas escapou graças a um suborno patrocinado pela Zegota. Finda a guerra, Irena foi laureada pela Polônia como “Anjo de Varsóvia”. Só trouxe sua história para instigar o lado bom de quem a lê e perguntar: “Como pode existir alguém que defenda tiranos? Em 2008 o céu acolheu o Anjo de Varsóvia.

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).