ARTIGO

O título foi bordão e emblema dos primeiros libertários que conquistaram o fim do tráfico de escravos no Reino Unido em 1807. O lema convenceu a sociedade inglesa, na lógica do silogismo aristotélico com apelo cristão. Na premissa maior todos os homens são iguais e merecem liberdade. O negro cativo e suplicante era homem, fato que ninguém podia negar. Era a premissa menor na conclusão de que o tráfico e a escravização dos negros era ilegal.
O exemplo fez apelo à abolição da escravatura no mundo. Aqui, graças às lutas de abolicionistas como José do Patrocínio, Joaquim Nabuco, Maria Firmina dos Reis, Castro Alves, Rui Barbosa e outros, chegamos à lei áurea da princesa Isabel, em 1888. Mas, a erradicação do racismo estrutural é processo lento e por isso, celebramos no dia 20 de novembro como dia da consciência negra, um tributo ao personagem Zumbi dos Palmares, assassinado nesse dia.
Consta que Zumbi nasceu livre em 1655, na Serra da Barriga, no atual município alagoano de União dos Palmares. Como instrumento de resistência à escravidão, já existia o Quilombo dos Palmares, onde se refugiavam cativos que fugiam das senzalas e sobreviviam de atividades agrícolas e extrativismo. Sempre sob ataques do Império e da fidalguia escravagista, os quilombolas organizavam a própria segurança. Zumbi vivia no quilombo comandado por seu tio Ganga Zumba. Num dos ataques ao quilombo, foi preso quando tinha 7 anos de idade e entregue ao Padre Jesuíta Antônio Melo que o batizou e educou. Aos 15 anos, agora com a fé cristã e o ideal de resistência à frente, voltou ao Quilombo dos Palmares. Lá, guerreiro, inteligente e estrategista, comandou o gueto depois da morte do tio que fora envenenado. Ali, foi um líder atuante e temido. Virou mito sagrado, mas alvo do Império escravocrata.
No livro “365 dias que mudaram o Brasil”, Valentina Nunes conta que dom Pedro II de Portugal e Algarve prometeu 50 mil réis, o equivalente a 70 gramas de ouro, ao capitão Furtado de Mendonça, um dos comandantes das tropas do bandeirante Domingos Jorge Velho, em troca da cabeça de Zumbi. Aí, entrincheirado no seu último esconderijo em mata fechada, Zumbi foi emboscado e assassinado em 20.11.1695. Decapitado, entregaram sua cabeça ao governador da Capitania pernambucana Caetano de Melo e Castro que a expôs em praça pública como troféu. É a história de um mito com uma causa. A mesma causa do negro cativo que pergunta: “Não sou homem e irmão?”
(Eliseu Auth é promotor de justiça, atualmente advogado).