ARTIGO

Diz a canção popular: “No Rio Grande chegaram um dia, os missionários trazendo a fé. O índio xucro foi convertido e teve um santo que foi Sepé”. Não conheço um movimento civilizatório, cultural, de organização gregária e catequizador, mais simbólico que as reduções jesuíticas, lá no Rio Grande.
Tudo começou lá pelos idos de 1626, por isso o Rio Grande do Sul está festejando os 400 anos das Missões Jesuíticas \junto aos índios guaranis. A Ordem dos Jesuítas sucedeu à crise religiosa da Igreja, iniciada no século XVI, lá na Europa pelo frade dominicano Martinho Lutero e se dedicou à difusão da doutrina, mundo afora. Certamente foi nesse desiderato que os jesuítas vieram catequisar os indígenas guaranis que habitavam parte do Rio Grande, da Argentina e do Paraguai. Ali, fundaram cidades, comunidades com método e extraordinária organização, chamando a atenção dos colonizadores espanhóis e portugueses que acabaram por temê-las, atacá-las e destruí-las.
Volto ao Rio Grande, onde todos se orgulham dos sete povos das missões: São Borja, São Luiz Gonzaga, São Nicolau, São Lourenço, São Miguel Arcanjo, São João Batista e Santo Ângelo. Eles são mais que cidades históricas porque habitam o imaginário dos missioneiros como símbolos de cristandade, coragem e heroísmo tanto dos jesuítas como dos guaranis.
Sem medo de ser piegas, digo que virei missioneiro por adoção. A vodade de Santo Ângelo do Itaquarinchim e do Ijuí que serpenteia pertinho, logo ali em Entre-Ijuís, era sede do distrito de São Miguel, onde os jesuítas ergueram a Redução. A obra inspirou e moldou a cidade com a marca missioneira e deu luz e cor à eterna capital das missões, onde, quis o destino, vivesse parte dos meus anos de formação acadêmica. Se foi tempo de carestia, também foi de lutas estudantis. Santo Ângelo foi palco dessa rica co-existência sob o signo dos jesuítas. Sua Catedral imita a Igreja da Redução, há muito tempo feita ruínas.
É muito justa essa comemoração dos 400 anos das missões. Quero me associar à homenagem, lembrando missioneiros como Jaime Caetano Braun, Noel Guarani, Pedro Ortassa, Cenair Maicá, Padre Lauro Buetenbender, Dom Orlando Dotti, Marcelo Mioso, Dom Aloízio Lorscheider, Carlos Wilson Schroeder e outros da minha história que me evocam as reduções jesuíticas.
(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).