Umuarama

INFORME UEM AGRÍCOLA

Sistemas agroflorestais como mecanismo de recuperação de solos

19/07/2020 06H56

Prof. Erci Marcos Del Quiqui

Eng. Agrônomo – Pós-Doutorado em Produção Vegetal

Departamento de Ciências Agronômicas UEM –Umuarama

emdquiqui@uem.br

O sucesso da produção agropecuária brasileira se deve principalmente ao amplo espaço territorial e as condições de clima, solo, topografia e principalmente a uma grande e competente rede de pesquisa e desenvolvimento que serve de referência a outros países tropicais.

A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta – ILPF é um sistema agroflorestal que consiste numa tecnologia conservacionista podendo triplicar a produção agrícola sem a necessidade de ampliar áreas. Está sendo implantado em várias propriedades Brasil a fora com excelentes resultados, mas ainda é desconhecido por boa parte dos agropecuaristas.

Na década de 50-60, a cultura do café foi a principal atividade agrícola no noroeste do Paraná, gerando divisas e riquezas devido ao aumento do consumo da bebida e aos seus baixos estoques mundiais. A partir de 1975, com a ocorrência de uma severa geada que dizimou os cafezais do Estado, a atividade agrícola entra numa nova fase, sendo a cafeicultura substituída por outras atividades principalmente pela pecuária que permaneceu até os dias atuais em muitas propriedades. Essas áreas convertidas em pastagens são na sua maioria caracterizadas pelo baixo nível de manejo.

Estudos da Embrapa estima uma perda média de 6% ao ano do potencial produtivo das pastagens, mesmo utilizando de espécies recomendadas, bem implantadas. Essa perda se deve principalmente à falta de adubação de manutenção e de conservação adequada do solo promovendo erosão acentuada, compactação, infestação de ervas indesejadas, etc. Associado a isso, possuímos um solo com fertilidade naturalmente pobre devido sua natureza geológica associado ao clima. São solos com baixos teores de argila apresentando pH ácido, baixos teores de fósforo, cálcio, magnésio, matéria orgânica e presença de alumínio tóxico e baixa capacidade de armazenamento de água.

A recuperação dessas áreas de forma tradicional é cara e seus benefícios são demorados, desmotivando qualquer ação. Todos esses fatores aceleram o processo de degradação, mergulhando numa espiral descendente, ficando cada vez mais difícil sua recuperação devido seu alto custo.

Apesar dos solos tropicais serem pobres, alguns nutrientes se apresentam em grandes quantidades, mas como estão fortemente retidos nas partículas do solo, não estão acessíveis pela maioria das plantas. Entretanto várias espécies vegetais, incluindo árvores usadas na ILPF, possuem mecanismos especiais como liberação de certos ácidos orgânicos pelas raízes que conseguem absorver esses elementos retidos e também aqueles que estão em profundidade, fora do alcance das outras plantas. As árvores possuem então essa importante função, resgatando os nutrientes, seja aquele retido nas partículas do solo, seja aquele em profundidade, via deposição foliar, reciclando esses elementos e fertilizando a superfície do solo, beneficiando as culturas companheira sem que o produtor rural tenha de investir em fertilizantes. Além desse aumento do teor dos nutrientes, também ocorrem outros benefícios importantes, como aumento da matéria orgânica e consequente atividade biológica, complexando o alumínio tóxico, melhorando a estrutura do solo, a infiltração e retenção de água, protegendo o solo das chuvas e sol intenso. Este é o principal benefício do uso do componente arbóreo para o solo, ou seja, assume o papel de reciclar e aumentar os teores dos nutrientes via deposição foliar, promovendo a estabilidade e sustentabilidade do sistema.

Outros benefícios importantes em pastagens sombreadas é a melhoria de condições microclimáticas, como a redução da amplitude térmica, aumento da umidade relativa do ar, diminuindo os riscos de geadas e da intensidade dos ventos. Essas condições favorecem aumento do bem-estar animal traduzindo em maior produtividade, seja carne, leite ou lã.

Além de todos esses benefícios citados, ainda temos um estoque de madeira gerado que, quando bem manejados, será uma nobre fonte toras de excelente qualidade que vai suprir uma deficiente demanda de toras visando atender o mercado moveleiro da região com elevado valor agregado.

Planejamento do sistema

O primeiro passo seria avaliar a caracterização do solo e do clima da região pois os componentes que serão usadas no sistema (culturas anuais, raças dos animais, forrageira e árvores) obedecem a exigências ecológicas distintas. Num segundo momento deve-se fazer uma análise de mercado para os produtos que serão produzidos no sistema e que possam atender a demanda regional, garantindo sua comercialização. Com relação ao componente arbóreo, o município de Umuarama é considerado como o segundo polo moveleiro do Paraná em que a demanda por toras de qualidade e em quantidade para atender essa exigente deficiência é evidente, portanto manejar as árvores visando esse nicho de mercado é vital para auferir lucros maiores.

O tempo de utilização da lavoura, da pecuária ou da floresta vai depender do sistema adotado por isso é muito importante consultar um técnico especializado no assunto para uma orientação mais precisa.

Outro fator importante que deve ser considerado é com relação ao treinamento adequado da mão de obra pois normalmente o responsável pelas atividades corriqueiras da propriedade não tem familiaridade em manejar os outros componentes que serão introduzidos devendo ser capacitados de forma adequada.

Manejo da desrama e do desbaste florestal

Como as árvores estão plantadas com distâncias maiores daquelas em plantio convencional, elas tendem a apresentar maior desenvolvimento de ramos ou galhos devido a falta de competição lateral. Além de uma produção maior de galhos, também estes serão mais persistentes e, em vez dessa biomassa se acumular no tronco produzindo toras de qualidade, se perde produzindo esses ramos. A desrama, quando feita no momento e de forma adequada elimina esse problema. Outro benefício importante é que essa operação elimina os nós mortos na madeira que será observado no momento de seu beneficiamento, gerando cerrados “clean” muito desejado no mercado de madeira desdobrada. Aliado a isso a operação permite ainda, maior entrada de luz para as plantas que estão sob sua copa, seja um cultivo agrícola ou pastagem favorecendo seu desenvolvimento.

É importante que esses galhos desramados sejam depositados na linha das árvores pois irão se decompor e reciclar os nutrientes.

Já, o desbaste consiste em cortes ou remoção de árvores ainda jovens, imaturos com o objetivo de acelerar o crescimento das árvores remanescentes que tornarão fonte de material nobre quando deixados para o corte final. O principal efeito do desbaste é o rápido crescimento em diâmetro devido ao alívio do adensamento, porém como desvantagens temos um aumento da conicidade do tronco (indesejável na hora do desdobramento pois diminui o rendimento dos cerrados) e formação de novos ramos devido a maior exposição. Mas isso pode ser resolvido se realizarmos a desrama junto com o desbaste.

O desbaste também permite um aporte de capital financeiro durante essas rotações, aliviando o custo de produção do sistema.

Os sistemas de ILPF, com manejo adequado das culturas e pastagens, podem proporcionar substanciais aumentos na produção, principalmente quando ocorre recuperação de áreas degradadas ou pouco produtivas. Pela adoção destes sistemas, promove-se benefícios ambientais, como proteção de áreas com vegetação nativa, melhoria na conservação do solo e recursos hídricos, além de promover o desenvolvimento socioeconômico regional. Além disso, o cultivo de grãos, as pastagens e florestas contribuirão para o sequestro de CO2 atmosférico via fotossíntese e posterior incorporação na forma de matéria orgânica ao solo.

A ILPF é apenas mais uma alternativa de sistema de produção viável que procuram ser mais eficientes e autossustentáveis exigindo manejo contínuo e um acompanhamento permanente das tendências de mercado.