DIA DOS POVOS INDÍGENAS

Umuarama – O povo Xetá, originário da região da Serra dos Dourados, no Noroeste do Paraná, vive uma das histórias mais marcantes de violência, dispersão e resistência entre os povos indígenas brasileiros. Habitantes tradicionais de áreas que hoje compreende o município como Umuarama, os Xetá foram a última etnia do estado a entrar em contato com a sociedade não indígena, já na década de 1950. Esse contato, no entanto, ocorreu em meio à invasão de seu território por frentes de colonização que avançavam desde os anos 1940, impulsionadas principalmente pela expansão da cafeicultura, criação de gado e políticas de ocupação territorial.
Mesmo com a presença indígena já comprovada, o governo do Paraná repassou essas terras a empresas de colonização, como a Suemitsu Miyamura & Cia. Ltda. e, posteriormente, à Companhia Brasileira de Imigração e Colonização (COBRIMCO), ligada ao grupo Bradesco. Esse processo resultou na expulsão dos Xetá de seu território ancestral e desencadeou uma série de violências que levaram à quase extinção do povo. Relatórios históricos e investigações oficiais apontam que houve mortes por doenças, envenenamentos, ataques armados, queima de aldeias e sequestro de crianças, configurando um cenário reconhecido como genocídio.
Antes desse processo, estima-se que os Xetá somavam entre 250 e 400 pessoas, organizadas em núcleos familiares que viviam da caça, da coleta e da relação direta com a floresta. Falantes de uma língua da família Tupi-Guarani, tinham sua cultura profundamente ligada ao território. Com a invasão, muitos morreram, outros fugiram para o interior da mata e diversas crianças foram retiradas de suas famílias, o que provocou uma ruptura cultural profunda.

Entre os sobreviventes está Maria Rosa Brasil Tiguá, de 74 anos, que concedeu entrevista ao jornal Umuarama Ilustrado nesta quinta-feira (16). A reportagem marca a passagem por mais um Dia do Índio (Povos Indígenas), neste 19 de abril. Nascida na própria Serra dos Dourados, ela carrega memórias vivas de um tempo em que o povo Xetá ainda vivia em seu território. Sua infância foi marcada por perdas precoces. A mãe morreu logo após seu nascimento. “Não lembro se foi no parto, mas sei que foi logo que eu nasci ela faleceu”, relata. Criada inicialmente pelo pai, também o perdeu ainda criança. “Meu pai morreu dormindo, não dá pra saber do que foi, até porque naquela época não tinha como saber”. Após isso, passou a viver sob os cuidados de um tio.
A vida naquele período era de subsistência total. Quando sentia fome, precisava buscar alimento na mata. “Tinha carambola, goiaba, jabuticaba”, lembra. A água para beber vinha diretamente dos rios, onde também tomavam banho. Não havia roupas. “No frio, a gente ficava perto do fogo, que fazia com cipó e folha seca. As mulheres não usavam roupa, e os homens só uma tanga.” A alimentação dependia da caça realizada pelos homens. “Tinha dias que tinha carne. Eles traziam passarinho, tamanduá, macaco, anta.”
As lembranças mais dolorosas vieram com a chegada dos não indígenas. Maria Rosa relata cenas de violência que presenciou ainda criança. “Dói muito pra nós saber das barbaridades que fizeram com nosso povo, tudo por conta de terra”, afirma. Segundo ela, era comum ver caminhões chegando e levando indígenas à força. “Às vezes víamos o homem branco vindo de caminhão e levando vários índios. Nunca mais vimos esses índios novamente. Não sabemos o que fizeram com eles.” Muitos eram mortos nas aldeias, enquanto outros tentavam fugir. “Alguns conseguiam atravessar o rio, outros morriam afogados. Era muito triste.”

Emocionada, ela relembra a expulsão do território: “O homem branco veio e acabou com tudo que tínhamos. Nosso povo, nossa terra…”. Assim como outros sobreviventes, Maria Rosa foi afastada da convivência coletiva do povo Xetá ainda na infância, o que contribuiu para a perda parcial de sua cultura e língua.
Em meio ao avanço dos não indígenas, Maria Rosa acabou sendo levada para a Fazenda Nova Santa Rosa, na região mesmo, onde passou a viver e foi criada pelos proprietários. Ali, sua realidade mudou completamente. Sem acesso à educação, ela não frequentou escola e não aprendeu a ler. Desde cedo, passou a realizar diversas atividades no local. “Fazia de tudo”, relembra, incluindo trabalhos braçais, o que evidencia a forma como muitas crianças indígenas foram inseridas em rotinas de trabalho duro após serem afastadas de suas famílias e de sua cultura.
Atualmente, ela vive em Umuarama com uma de suas filhas, de 41 anos. A outra filha, de 40 anos, mora em Presidente Prudente, em São Paulo. Maria Rosa é avó de quatro netos — três vivem com ela em Umuarama, duas meninas e um menino, e uma neta mora com a mãe no interior paulista. Mesmo levando uma vida simples, mantém viva a memória de seu povo e a identidade Xetá.

Hoje, os poucos sobreviventes estão dispersos entre os estados do Paraná e Santa Catarina, muitos vivendo em terras de outros povos indígenas, como Kaingang e Guarani, ou em áreas urbanas. Apesar da distância física, permanecem unidos pelo mesmo objetivo: o reconhecimento de seus direitos e a retomada do território tradicional na Serra dos Dourados, atualmente em processo de demarcação como Terra Indígena Herarekã Xetá.
Esse processo, no entanto, se arrasta há décadas e enfrenta entraves políticos e jurídicos. A área já foi reduzida significativamente ao longo dos estudos, enquanto segue ocupada por atividades agrícolas como plantio de cana-de-açúcar, café e criação de gado. Além disso, a tese do marco temporal — que limita o direito às terras apenas aos povos que as ocupavam em 1988 — representa uma ameaça direta aos Xetá, que foram expulsos muito antes dessa data.
Mesmo diante de tantos obstáculos, o povo Xetá segue resistindo. A memória dos sobreviventes e o esforço de seus descendentes mantêm viva a história de um povo que quase desapareceu, mas que ainda luta por justiça, reconhecimento e dignidade.
Para Maria Rosa Brasil Tiguá, o desejo é simples, mas carrega um significado profundo: voltar a viver em sua terra, ao lado de seu povo. “Se a gente estivesse junto, seria outra coisa. Um lugar pra plantar, viver em paz… é isso que a gente quer.”
