DIA DO SAPATEIRO

O cheiro de couro, o estalo da cola secando e o barulho ritmado do martelo sobre o sapato. Ao entrar na Colamzi Sapataria, na Rua Guardiana, 4029, próximo ao Hospital Nossa Senhora Aparecida, é impossível não sentir que se está em um espaço onde o tempo e a tradição caminham juntos. À frente deste mundo de consertos, ajustes e engraxamentos está David Cezar Colamzi, 41 anos, sapateiro desde os 11, cuja vida parece entrelaçada com o couro e as solas de sapato.
“Eu praticamente nasci dentro de uma sapataria. Meu pai tinha a Prego de Ouro, em Umuarama, e desde pequeno eu estava ao lado dele, vendo cada detalhe do que ele fazia”, lembra David, com o olhar que mistura orgulho e saudade. Lembranças do pai e do cheiro inconfundível do couro ainda parecem preencher o espaço enquanto ele organiza ferramentas e prepara a cola.
O ofício se aprofundou ao longo dos anos, passando também pelas sapatarias de irmãos e cunhados, incluindo longos períodos na Clínica de Calçados, onde aperfeiçoou técnicas e adquiriu a paciência necessária para lidar com cada tipo de reparo. Há oito anos, David abriu seu próprio estabelecimento, onde hoje trabalha sozinho, atendendo clientes de Umuarama e de cidades vizinhas como Xambrê, Cruzeiro do Oeste, Iporã, Cafezal do Sul e até Curitiba.
“O inverno é a época mais intensa. Os sapatos chegam cansados, desgastados, e saem renovados. É como dar vida nova a cada peça”, explica. A colagem de sapatos é o serviço mais comum, mas ele também repara bolsas, jaquetas e bolas.

David observa que a profissão de sapateiro está se tornando cada vez mais rara. “Muitos colegas da antiga geração já faleceram e outros migraram para diferentes áreas. É um ofício que corre risco de desaparecer”, comenta.
No entanto, paradoxalmente, a demanda pelo serviço aumentou. “Antigamente, os sapatos eram de melhor qualidade e duravam mais, então precisavam de menos consertos. Hoje, mesmo com o avanço da tecnologia e a produção em massa, os produtos são mais frágeis e precisam de manutenção constante. Isso mantém o sapateiro ocupado e mostra o quanto nosso trabalho continua essencial”, explica David.
A família sempre foi parte central desse ofício. David é um dos seis filhos de um pai apaixonado pela profissão, que só deixou o trabalho por causa da doença – foi diagnosticado com câncer. “Meu pai faleceu há dois anos. Antes da doença ele ainda consertava sapatos. Toda a família esteve envolvida com sapataria. Hoje, além de mim, só meu cunhado mantém a tradição”, diz, com um misto de orgulho e nostalgia.
A esposa de David, que trabalhou com ele nos primeiros anos ajudando no atendimento e na organização da sapataria, é outro elo dessa história de dedicação. “Ela esteve comigo no começo, dividindo cada desafio. Hoje, ela segue em outra área, mas o apoio permanece”, comenta.
Para David, ser sapateiro vai além de consertar sapatos; é uma paixão que atravessa gerações, um elo entre passado e presente. Cada par que chega à Colamzi Sapataria carrega histórias, memórias e momentos de vida. “Consertar um sapato é como restaurar uma parte da história de alguém. É mais do que trabalho; é cuidado, paciência e amor pelo que fazemos”, conclui.
Data celebrativa
O Dia do Sapateiro, celebrado hoje, dia 25 de outubro, homenageia os santos Crispim e Crispiniano, padroeiros da profissão, irmãos que viveram no século 3 e, além de pregar o cristianismo, confeccionavam sapatos para sobreviver. Perseguidos e mortos pelo imperador da época, eles se tornaram símbolos de dedicação e coragem. Mais tarde, em 1305, o Rei Eduardo I da Inglaterra introduziu a uniformização dos calçados, dando início à padronização que influencia até hoje a fabricação de sapatos no mundo inteiro.