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História

Nova edição de clássico de Darwin recupera seu contexto histórico

01/09/2018 15H47

Pode parecer absurdo que um livro de 600 páginas seja considerado um mero resumo, mas é exatamente assim que o naturalista britânico Charles Robert Darwin (1809-1882) classificava sua obra mais célebre, “A Origem das Espécies”.

Como mostra uma nova edição brasileira do livro, que recupera os detalhes do contexto histórico do século 19 no qual a teoria da evolução emergiu, Darwin queria publicar um tomo muito mais volumoso, mas acabou decidindo divulgar uma versão relativamente enxuta de suas ideias por um motivo que os cientistas atuais conhecem bem: a pressão da concorrência. De fato, Darwin foi o primeiro a formular de forma coerente o princípio da seleção natural como a força motriz da complexidade e diversificação dos seres vivos, mas levou décadas para refinar a ideia, discutindo suas teses apenas com um ou outro colega.

Em junho de 1858, porém, chegou às mãos dele uma carta enviada da atual Indonésia pelo também naturalista Alfred Russel Wallace (1823-1913). A missiva continha o rascunho de um artigo científico detalhando, em linhas gerais, a mesma visão que Darwin esposava. Pego de surpresa, e aconselhado pelos aliados Sir Charles Lyell e Joseph Hooker, Darwin concordou em submeter, no mês seguinte, alguns de seus textos para leitura na reunião da Sociedade Lineana de Londres, junto com o artigo de Wallace. A nova edição conterá a íntegra de todos os textos originalmente apresentados nesse encontro em Londres. “Publicá-los juntos pareceu importante, porque eles esclarecem a gênese da ideia central do livro”, explica o filósofo Pedro Paulo Pimenta, da USP. Além de tradutor do livro, ele é responsável pela organização e apresentação da obra.

Embora “A Origem das Espécies” propriamente dita seja o cerne do novo volume –trazendo o texto da primeira edição inglesa, considerada a mais representativa da originalidade do pensamento de Darwin –, Pimenta traduziu “extras” que ajudam a entender o impacto original.

Os mais interessantes talvez sejam três resenhas “quentes” do livro, escritas em 1860 por três figuras influentes.

Um deles é o célebre “buldogue de Darwin”, Thomas Henry Huxley, um anatomista comparativo britânico que, como o epíteto deixa claro, foi um dos defensores de primeira hora do naturalista e enfrentou o bispo anglicano de Oxford, Samuel Wilberforce, num debate sobre a evolução e o parentesco do homem com os demais primatas.
Enquanto Huxley era anticlerical (cunhou o termo “agnóstico” para descrever sua posição a respeito da crença em Deus), um presbiteriano devoto dos EUA é o autor da outra resenha elogiosa. Asa Gray, botânico da Universidade Harvard, apontou, em seu texto, que os argumentos de Darwin poderiam ser compatibilizados com a ideia de um Deus que atua no mundo por meio de leis naturais.

SELEÇÃO NATURAL

Finalmente, há a análise do paleontólogo sir Richard Owen, que critica duramente a ideia de seleção natural e se diz desapontado com o resultado do trabalho de Darwin. “Essas resenhas mostram que as controvérsias em torno do livro se deram principalmente no meio científico, em torno de problemas teóricos, incluindo a ordenação da natureza por uma sabedoria divina”, diz Pimenta. “A questão religiosa, esse embate entre evolucionismo e criacionismo, é mais recente, é uma marca da nossa época.” O tradutor, cuja especialidade acadêmica é o estudo de filósofos do Iluminismo do século 18, e de como as bases lançadas por eles contribuíram para o arcabouço da ciência moderna, diz que enxerga em Darwin a influência de duas correntes iluministas. A primeira é a economia política escocesa, que tendia a enxergar mecanismos de equilíbrio espontâneo na natureza, no lugar do que os filósofos chamam de “ordem teleológica” (ou seja, criada “de cima para baixo”). A visão darwinista subverte a ordem teleológica ao imaginar que, a partir de um ancestral comum, a competição pela sobrevivência e pela reprodução entre os seres vivos, com algumas formas ancestrais conseguindo deixar mais descendentes que outras, é que teria levado à diversificação das espécies e à formação de ecossistemas complexos – um processo, portanto, “de baixo para cima”. Para Pimenta, a segunda corrente do Iluminismo a influenciar o pesquisador é a história natural francesa, às voltas com a questão da unidade dos seres vivos em meio à sua variedade. (Folhapress)

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A Origem das Espécies

Autor: Charles Darwin. Trad.: Pedro Paulo Pimenta. Ed. Ubu. R$ 99,90 (800 págs.)