COMÉRCIO

As placas de “aluga-se” espalhadas pela Avenida Paraná, principal corredor comercial de Umuarama, foram o ponto de partida para uma discussão que ganhou novas dimensões nos últimos dias. O levantamento realizado pelo Umuarama Ilustrado, que identificou 48 imóveis comerciais desocupados e disponíveis para locação em toda a extensão da avenida, provocou debates entre empresários, entidades representativas e poder público sobre o presente e, principalmente, o futuro do comércio da cidade.
A constatação chama atenção porque ocorre em um cenário aparentemente contraditório. Enquanto parte do comércio tradicional enfrenta dificuldades para manter seus pontos físicos ocupados, Umuarama registra crescimento no número de empresas. Segundo o Censo Empresarial, são atualmente 20.744 estabelecimentos ativos, contra 15.825 registrados pela Junta Comercial do Paraná (Jucepar) no final de 2023. Somente em julho, foram abertas 409 empresas e registradas 154 baixas, resultando em saldo positivo de 255 estabelecimentos.
O levantamento do Ilustrado mostrou ainda que a maior concentração de imóveis vazios está justamente em trechos tradicionais do comércio. São 13 imóveis entre o Shopping Palladium e a Praça Miguel Rossafa; 11 entre a Praça Miguel Rossafa e a Praça Arthur Thomaz; 18 entre a Praça Arthur Thomaz e a Praça Santos Dumont; e outros seis entre a Praça Santos Dumont e a Praça da Bíblia.

A reportagem também encontrou anúncios com valores entre R$ 6,4 mil e R$ 18 mil mensais, sem contar encargos como IPTU e seguro contra incêndio. Nos cinco imóveis analisados, a média chegou a aproximadamente R$ 10.840.
Mais do que contabilizar imóveis vazios, porém, a reportagem levantou uma questão: o que está acontecendo com o comércio de Umuarama?
A pergunta começou a provocar respostas.
Tema chega ao Conselho de Desenvolvimento
A primeira reação institucional veio no Conselho de Desenvolvimento de Umuarama (CDU). Na última quarta-feira (12), o tema foi levado ao conselho pelo secretário municipal de Indústria e Comércio, Sérgio Vercezi Filho, que presidiu a reunião ordinária.

O encontro aconteceu no Sicoob Arenito e reuniu representantes do Executivo e do Legislativo municipal, empresários e integrantes do conselho.
A discussão teve como foco o cenário econômico de Umuarama, a ocupação dos imóveis comerciais, a dinâmica empresarial e as perspectivas para o desenvolvimento econômico do município.
A reunião foi considerada muito produtiva, justamente por colocar diferentes setores diante de uma mesma questão e permitir que o cenário identificado pelo levantamento do Ilustrado fosse discutido sob a perspectiva de quem acompanha diretamente a economia da cidade.

Participaram da direção do CDU o presidente Luciano Gomes Souto, o vice-presidente Michel Furlan, o secretário executivo Christhian Pellacani e o secretário municipal Sérgio Vercezi Filho, além de autoridades e empresários.
A inclusão do assunto na pauta mostra que a discussão deixou de ser apenas uma observação sobre imóveis vazios e passou a integrar o debate sobre o desenvolvimento econômico de Umuarama.
ACIU também reúne comerciantes para discutir soluções
Dois dias depois, na sexta-feira (14), a discussão ganhou outro espaço. A Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Umuarama (ACIU) promoveu um Talk Show do Núcleo do Comércio para discutir justamente as transformações pelas quais o varejo está passando.

O encontro reuniu dezenas de empresários e comerciantes e foi coordenado por Ana Flávia Miquelante, consultora dos Núcleos da ACIU. O Talk Show foi conduzido pela empresária Andreia Secco Antonio, proprietária da Avatim.
Participaram como convidadas e convidado três empresários com longa trajetória no comércio de Umuarama: Lucimara Pereira Marques de Assis, proprietária da Corpore, Lamore Concept, Infantille, Personalittá Presente e Arezzo; Regina Lúcia Mariani Santana, proprietária das franquias Usaflex; e Weverton Alves de Queiroz, da Xodó Bolsas.
As perguntas colocadas aos participantes foram diretamente relacionadas aos desafios identificados no comércio local: o que está acontecendo com o varejo, o que mudou no comportamento do consumidor, por que o comércio não acompanhou essas mudanças, o que faz alguém escolher uma loja física em vez de uma compra digital e por que ainda existem dificuldades para a formação de parcerias entre os próprios empresários.
As respostas apresentaram um ponto em comum: o consumidor mudou e o comércio precisa mudar junto.
“O varejo mudou”
Com 26 anos de experiência no comércio de Umuarama, Lucimara Pereira Marques de Assis avaliou o atual momento com otimismo.
Proprietária da Corpore, Lamore Concept, Infantille, Personalittá Presente e Arezzo, ela considera que o setor atravessa uma fase de transição, especialmente no segmento de confecção.
Para Lucimara, uma das maiores forças que a loja física ainda possui é o relacionamento construído ao longo do tempo.
Ela contou que mantém clientes que compram desde quando abriu a loja e que atualmente também atende os filhos dessas pessoas.
A empresária acredita que o atendimento precisa ser tratado como diferencial.
Em uma frase que resume sua visão sobre o varejo, Lucimara costuma perguntar às funcionárias como elas atenderiam um cliente caso “Jesus entrasse ali agora”.
A preocupação, segundo ela, é fazer com que cada consumidor seja recebido com atenção, empatia e respeito.
Sua mensagem aos comerciantes é de cuidado com o próprio negócio: “Cuide do seu negócio com amor e empatia. Seja um mordomo fiel das coisas que Deus te deu.”

“Precisamos fazer diferente”
Regina Lúcia Mariani Santana, proprietária da Usaflex Franquias, possui 34 anos de experiência no comércio e vê o cenário com otimismo.
Para ela, Umuarama continua tendo um comércio dinâmico e com potencial, mas o varejo precisa entender que a transformação começou pelo consumidor.
Na avaliação da empresária, muitos comerciantes não perceberam a velocidade com que os hábitos de compra mudaram.
Por isso, defende que é necessário “fazer diferente”.
Regina também chama atenção para a necessidade de construir uma identidade para o comércio local e criar motivos para que as pessoas saiam de casa e venham às lojas.
Nesse contexto, ela enxerga uma oportunidade na integração entre comércio e turismo.
A pergunta, segundo ela, não deve ser apenas como trazer pessoas para Umuarama, mas também o que o comércio está fazendo para que essas pessoas tenham uma boa experiência e queiram voltar.
“Não adianta apenas reclamar de Shopee e Mercado Livre”
Regina também defendeu uma mudança de postura dos comerciantes diante das grandes plataformas digitais.
Para ela, não adianta simplesmente reclamar da Shopee, do Mercado Livre e de outras empresas que disputam o consumidor com as lojas tradicionais.
É preciso entender a tecnologia, migrar também para o ambiente virtual e, ao mesmo tempo, preservar a loja física.
A empresária defende o cooperativismo e a união entre os comerciantes, para que o setor encontre alternativas coletivas diante das mudanças.
A loja física, na visão dela, não desapareceu. Ela precisa, porém, oferecer algo além do produto.
Relacionamento, conexão e tempo dedicado ao cliente são fundamentais. “Boca a boca e confiança continuam sendo ferramentas importantes, mas exigem que o comerciante esteja disposto a conversar e se conectar com as pessoas”, destacou.
“Depender apenas do comércio de rua é delicado”
A mesma percepção aparece na experiência de Weverton Alves de Queiroz, proprietário da Xodó Bolsas e há mais de 20 anos no comércio de Umuarama.
Ele afirma que sentiu uma mudança significativa no comportamento dos consumidores depois da pandemia.
Antes, mantinha uma quantidade considerável de funcionários e clientes. Depois da pandemia, percebeu uma redução importante no movimento.
Na avaliação dele, atualmente é delicado depender exclusivamente do comércio de rua.
Por isso, a solução encontrada foi manter a loja física e, ao mesmo tempo, avançar para o comércio eletrônico.
Weverton defende o modelo híbrido, combinando o atendimento presencial com as vendas pela internet.
Segundo ele, depois de começar a utilizar o ambiente virtual, as vendas aumentaram.
Para o empresário, o comércio precisa identificar inclusive quais são os produtos que o consumidor necessita com urgência e ter condições de oferecer aquela solução imediatamente.
A estratégia, portanto, não é escolher entre físico ou digital. É estar nos dois.
Do digital para o físico
A empresária Andressa Vitorelli, gerente da Primacial, já havia apresentado essa mesma experiência ao Ilustrado durante a primeira apuração. A empresa nasceu no comércio eletrônico e posteriormente abriu uma loja física, utilizando as duas frentes de maneira integrada.

Para ela, atualmente não basta abrir uma loja. É necessário investir em marketing, redes sociais, anúncios patrocinados e utilizar a internet para levar o consumidor até o estabelecimento.
A presidente da ACIU, Carla Frasquetti, destacou que a discussão sobre o comércio precisa ir além do diagnóstico dos problemas. Segundo ela, a entidade pretende aproximar cada vez mais os empresários, ouvir as dificuldades enfrentadas no dia a dia e, a partir dessas demandas, construir soluções coletivas.
Carla avaliou que o novo Núcleo Setorial do Comércio representa justamente esse espaço de participação e troca de experiências. A proposta é estimular o associativismo e preparar os comerciantes para as novas tendências do varejo, especialmente diante das mudanças no comportamento do consumidor.

A presidente afirmou ainda que a ACIU pretende ampliar iniciativas como o Talk Show. Atualmente, a entidade conta com oito núcleos setoriais e trabalha na criação de novos grupos. “A discussão busca não apenas expor os problemas, mas também trazer soluções”, resumiu.
A visão do mercado imobiliário
Além dos debates realizados no CDU e na ACIU, o Ilustrado buscou também a avaliação de quem acompanha diariamente a ocupação dos imóveis comerciais.
O Ilustrado foi até a sede da imobiliária para conversar com Moacir sobre o cenário dos imóveis comerciais, os valores dos aluguéis e as transformações do varejo.
Na avaliação dele, o avanço do comércio eletrônico é um dos principais fatores que explicam a dificuldade enfrentada pelas lojas físicas.

Moacir afirma que diariamente chegam a Umuarama milhares de produtos comprados pela internet, criando uma concorrência muito forte para o comércio tradicional.
Para ele, o empresário precisa aceitar que o mercado mudou e investir em novas estratégias.
“Vai sobreviver quem for mais inovador.”
Isso inclui, segundo Moacir, investimento em e-commerce, treinamento das equipes, melhoria no atendimento e fortalecimento das ações de marketing.
Aluguel pesa, mas não explica tudo
Embora reconheça que os aluguéis comerciais já foram elevados, Moacir entende que o mercado passou por um ajuste.
Segundo ele, atualmente os valores praticados estariam, em muitos casos, dentro de uma relação de aproximadamente 0,4% a 0,6% do valor do imóvel por mês.
Por isso, não considera que o aluguel seja, isoladamente, o principal problema.

Na avaliação dele, o que pesa é a combinação entre falta de demanda, redução do poder de compra, aumento dos custos e medo do empresário de investir.
O cenário também é influenciado pela concorrência digital.
Moacir avalia que o comerciante precisa encontrar formas de competir e oferecer ao consumidor motivos para escolher a loja física.
Comércio e mercado residencial seguem caminhos diferentes
A análise do empresário também mostra uma diferença importante dentro do próprio mercado imobiliário.
Enquanto os imóveis comerciais enfrentam dificuldades de ocupação, Moacir observa uma forte procura por imóveis residenciais para locação.
Segundo ele, a maior demanda está concentrada principalmente em imóveis entre R$ 1 mil e R$ 2,5 mil.
A procura estaria relacionada à redução do poder aquisitivo das famílias e à menor oferta de novos imóveis residenciais.
Ou seja, o problema não está simplesmente na falta de pessoas procurando imóveis. Existe demanda, mas ela se comporta de maneira diferente conforme o tipo de imóvel e a realidade econômica das famílias.

Uma discussão que saiu das placas de “aluga-se”
O levantamento realizado pelo Umuarama Ilustrado começou com uma constatação visual: 48 imóveis comerciais vazios na Avenida Paraná.
Mas, nos dias seguintes, a pauta ganhou novos espaços.
Foi levada ao CDU pelo secretário municipal de Indústria e Comércio, Sérgio Vercezi Filho, que presidiu uma reunião considerada muito produtiva. Depois, chegou ao debate entre comerciantes no Núcleo do Comércio da ACIU, que pretende manter reuniões quinzenais para discutir os desafios do setor.
E, paralelamente, o Ilustrado ouviu o mercado imobiliário, buscando entender se os aluguéis, a demanda e a transformação do consumo ajudam a explicar a quantidade de imóveis desocupados.

Os diferentes depoimentos apontam que não existe uma única causa.
O comércio de Umuarama enfrenta uma transformação provocada pela mudança de comportamento do consumidor, pelo avanço das plataformas digitais, pela redução do poder de compra, pelos custos operacionais e pela necessidade de inovação.
Mas também existe uma percepção de que Umuarama continua tendo potencial econômico.
Os três empresários que participaram do Talk Show, apesar das dificuldades, falaram em otimismo. Moacir defendeu inovação. A ACIU aposta no associativismo. O CDU abriu espaço para discutir o tema sob a perspectiva do desenvolvimento econômico.
A partir da provocação feita pelo Umuarama Ilustrado, a discussão, portanto, ganhou vida própria.
Agora, o desafio é transformar o diagnóstico em ações concretas: como tornar o comércio mais competitivo, atrativo e conectado ao consumidor sem perder a força da experiência presencial?
Essa resposta não depende de um único setor.
Depende de comerciantes, empresários, entidades, consumidores e poder público construírem, juntos, um novo caminho para o comércio de Umuarama.