EXEMPLO

No último sábado, dia 18 de abril, o calendário nacional celebrou o Dia Nacional do Livro Infantil, mas no Jardim Petrópolis, em Umuarama, a importância da data é refletida em uma rotina que se estende por todo o ano. O jornal O Ilustrado acompanhou de perto a rotina dos irmãos Thomas Cruz, de 13 anos, e Isabela Cruz, de 9 anos, que transformaram a leitura em um pilar de seu desenvolvimento pessoal sob a orientação cuidadosa da mãe, Eliane Cruz.
A família mantém um sistema rigoroso de organização do tempo, onde o acesso aos dispositivos móveis é controlado para dar lugar ao incentivo intelectual, provando que o hábito literário começa dentro de casa e se consolida com a participação ativa dos pais. Os irmãos, que estudam no período da manhã, seguem um ritual diário que começa logo após o almoço e o período de descanso. A leitura individual é realizada de segunda a sexta-feira, mas o diferencial está na mediação feita por Eliane, que relata ter iniciado esse processo com os filhos ainda muito pequenos.
“Comecei a ler em voz alta para o Jonas, por exemplo, quando ele ainda tinha entre um e dois anos de idade”, relembra a mãe. Após o tempo de leitura individual das crianças, Eliane assume a voz alta. “Eles fazem a leitura deles normalmente. Quando terminam, pego uma leitura com o vocabulário mais difícil e leio em voz alta para que eles possam ir se habituando com vocabulários que ainda não viram. Esse é um método de ensino que faço com eles diariamente”, explica.

Eliane ressalta que o período de leitura varia conforme a disposição dos filhos, sendo um tempo mais curto nos dias de cansaço e períodos mais longos quando estão dispostos. No final de semana ficam livres para brincar, participar de atividades na igreja e visitas à avó.
Conforme Eliane, os benefícios da leitura são nítidos para ela, que afirma: “Antes da leitura, meu filho Thomas, por exemplo, não focava tanto nas coisas, mas após o hábito pela leitura ele passou a ser um menino mais focado. Além disse o vocabulário e o conhecimento dele ficaram mais aprimorados”.
Thomas Cruz contou que começou a ler sozinho por volta dos oito anos. Sua dedicação o leva a ler cerca de 15 livros por ano, mantendo a média de uma obra por mês, mesmo tratando-se de livros mais volumosos. “Gosto de ler fantasias”, revela o adolescente, que não limita seu interesse apenas aos livros de fantasias, explorando outros gêneros literários na minibiblioteca da família, que conta inclusive com exemplares em inglês. “Também lemos livros em inglês, pois nos ajuda a aprendermos outra língua”, destacou.

Já a pequena Isabela Cruz, que iniciou sua jornada no mundo das letras aos sete anos, conta que sua motivação veio de dentro de casa. “Comecei a ler vendo os irmãos mais velhos lendo”, afirma a menina, que demonstra preferências claras em suas escolhas literárias: “Gosto de ler livros de romance, fantasia e de cavaleiros”.
Papo com especialistas
O impacto desse esforço familiar é corroborado pela professora Nayara Costa, pedagoga e especialista em Neurociência Aplicada à Educação, que atua na rede municipal de Umuarama. Segundo Nayara, a leitura acompanha o desenvolvimento em todas as fases da vida, pois amplia o olhar e faz o indivíduo perceber que existem muitas possibilidades além da própria realidade. “Na infância, o contato com os livros desenvolve a imaginação, a atenção, a memória e a linguagem. A leitura fortalece o cérebro infantil e constrói uma base muito importante para a alfabetização e aprendizagem”, destaca a professora.

Ela alerta, contudo, para os efeitos da tecnologia precoce, afirmando que o uso excessivo de telas influencia diretamente a concentração, pois os múltiplos estímulos de luz e som tornam difícil para a criança se envolver em atividades que exigem mais calma. “A maioria das crianças chega na escola sem nunca ter tido contato com livros. Quando elas passam a ter acesso e conhecer as histórias, o interesse começa a surgir e elas começam a pedir naturalmente pela história do dia”, observa Nayara, que leciona para turmas de 4 e 5 anos.
Aprofundando a análise sobre a importância do letramento, a Dra. Laís Bueno Tonin, doutora em Educação e coordenadora na UniALFA, reforça que a literatura na infância é essencial para a regulação emocional. “Quando a criança lê uma história sobre medo ou frustração, ou ouve uma de sucesso, ela começa a entender, por meio dessas representações, como as emoções funcionam no nosso cotidiano e como podemos reagir frente a elas”, explica Laís.

Para ela, a família desempenha um papel crucial ao sentar-se com a criança para explorar histórias, letras e enredos, o que garante uma alfabetização fluida e sem sofrimento. “Muitas vezes as famílias deixam de lado esse processo de leitura em casa. Se os pais se sentarem para explorar esse universo da imaginação com o filho que tem dificuldade de aprendizagem, por exemplo, certamente essa criança terá menos obstáculos na escola”, afirma a doutora.
Na fase da adolescência, Dra. Laís ressalta que a literatura assume um papel de construção de identidade e valores éticos. “Por meio da literatura você aprende que não pode ignorar o outro, que não pode fazer exclusão social. Ela ajuda a construir valores como a aceitação do gênero, da identidade, da sexualidade e o combate ao preconceito e ao capacitismo”, pontua.
Além do aspecto social, a professora também explica que a leitura prepara o jovem para a vida adulta e para profissões que demandam alta capacidade de escrita e argumentação, como o Direito, o Jornalismo e a Psicologia. “Quando você tem mais repertório literário na vida adolescente, você naturalmente argumenta melhor, sabe inclusive analisar informações falsas e cria repertório de escrita para a vida adulta. A literatura abre esse espaço crítico para que o adolescente aprenda a construir sua identidade e valores, preparando um terreno sólido para qualquer carreira que ele venha a escolher”, conclui a especialista.