Umuarama

INFORME UEM AGRÍCOLA

Generalidades sobre a cultura do girassol

02/08/2020 08H05

Profa. Dra. Juliana Parisotto Poletine

Engenheira Agrônoma – Doutora em Agricultura e Melhoramento Vegetal

Departamento de Ciências Agronômicas UEM – Umuarama

E-mail: jppoletine@uem.br

Ele é o queridinho dos fundos das selfies, fotos de pré- weddings, gestantes ou qualquer outra data comemorativa. Uma lavoura de girassol em plena floração é de tirar o fôlego, sendo comumente conhecida como a flor do cerrado. A espécie Helianthus annuus é originária da América do Norte, planta anual, de cultivo versátil e sua produção pode ser direcionada para alimentação humana (óleo comestível de excelente qualidade) ou animal (fonte protéica na produção de silagem e farelo), além do uso ornamental, produção de mel, em rotação de culturas e por que não na produção de biodiesel?

Atualmente, as pesquisas envolvendo a cultura estão concentradas em vários estados brasileiros: Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Pará, Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e no Distrito Federal. A versatilidade de locais pode ser justificada pela tolerância da cultura ao estresse hídrico, por ser pouco influenciada pela variação de latitude e altitude, pela baixa sensibilidade ao fotoperíodo e tolerância a baixas temperaturas, apresentando como ponto fraco a sensibilidade à umidade e chuvas elevadas.

De acordo com dados da Companhia Nacional de Abastecimento – CONAB, os estados que se destacam na produção brasileira são Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, sendo o Mato Grosso, responsável por aproximadamente 60% do total produzido. No ano agrícola 2019/2020, o Brasil produziu 150 mil toneladas de grãos de girassol, com o preço da saca sendo comercializado em média a R$70,00 segundo dados do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás.  

Como já mencionado, a cultura do girassol se adapta facilmente a diferentes regiões e fotoperíodos, além de poder ser introduzida em esquemas de rotação de cultura e/ou segunda safra, por apresentar sistema radicular profundo que atinge diversas camadas do solo. De forma geral é tolerante a pragas e doenças e é capaz de produzir cerca de 5,0 toneladas ha-1 de restos culturais ricos em nutrientes e matéria orgânica. Nos últimos 10 anos, percebe-se que a espécie vem atingindo patamares superiores em área de produção principalmente no nordeste do país.

Foto: Maria Carolina Fabrin Cabral

O ciclo vegetativo varia de 90 a 130 dias, dependendo do genótipo, da data de semeadura e das condições ambientais características de cada região e ano. Assim, para que haja sucesso com a cultura e produtividades cada vez mais elevadas, a escolha do genótipo (cultivar ou híbrido) a ser utilizado é de extrema importância, uma vez que o mesmo deve atender às condições edafoclimáticas de cada região. É preciso ainda atentarmos para a duração do ciclo dos materiais genéticos, altura das plantas, tamanho dos capítulos (flor do girassol) e teor de óleo nos aquênios (grãos). Em média, além de 400 kg de óleo de excelente qualidade, para cada tonelada de grão, são produzidos 250 kg de casca e 350 kg de torta, com 45% a 50% de proteína bruta, sendo este subproduto aproveitado na produção de ração, em misturas com outras fontes de proteína.

Dessa forma, sabe-se que a geração de informações pela pesquisa tem sido decisiva para dar suporte tecnológico ao desenvolvimento da cultura e dentre as várias tecnologias de produção de girassol, a escolha adequada de cultivares é muito importante para garantir o sucesso da cultura como um dos componentes dos sistemas de produção. Devido à existência de interação entre genótipo e ambiente, faz-se necessária a avaliação contínua

dos genótipos em vários ambientes para conhecer seus comportamentos agronômicos, nas diferentes condições brasileiras.

Para gerar informações sobre o desempenho dos genótipos, estes são avaliados pela Rede de Ensaios de Avaliação de Genótipos de Girassol, coordenada pela Embrapa Soja e conduzida em parceria com instituições públicas e privadas, realizadas em diferentes regiões edafoclimáticas de norte a sul do País. A Universidade Estadual de Maringá – UEM, Departamento de Ciências Agronômicas, Campus Umuarama, popularmente conhecida como “Fazenda” é um dos pólos de pesquisa da Embrapa há 10 anos. A parceria firmada entre essas importantes instituições permite que informações sejam obtidas sobre o comportamento de cultivares e híbridos no Arenito Caiuá.

Foto: Maria Carolina Fabrin Cabral

A inflorescência, ou flor do girassol, como é comumente conhecida, é um capítulo, onde se desenvolvem os grãos, denominados aquênios. Nos genótipos comerciais, o peso de 1000 aquênios varia de 30 a 60 gramas e, o número mais frequente de aquênios pode variar entre 800 e 1700 por capítulo.

Além de informações de interesse agronômico, o girassol caracteriza-se pela extração de óleo de excelente qualidade, sendo o 4º óleo vegetal do mundo e o primeiro uso de óleo de girassol em alimentos em 1830. Historicamente, na década de 1970, as variedades de alto teor de óleo desencadearam o uso mundial de óleo de girassol e atualmente, o girassol é o 4º óleo vegetal mais importante em todo o mundo.

A extração do óleo dos grãos/aquênios de girassol geralmente resulta em óleo de excelente qualidade. Este óleo apresenta teores de ácido linoleico (entre 55 e 65%) que ajudam a reduzir o colesterol plasmático e, por consequência, diminuem os riscos de doenças cardiovasculares, como, por exemplo, o híbrido SYN 045.

Já o híbrido SYN3950A é considerado mutante (girassol alto oleico), materiais que apresentam teores de ácido oleico acima de 80%, os quais além dos benefícios à saúde, como aqueles proporcionados pelo ácido graxo linoleico, o óleo rico em ácido graxo oleico apresenta maior grau de estabilidade oxidativa. No processo de extração, obtém-se também um farelo (coproduto) altamente proteico e usado na produção de ração animal. Atualmente, além desses híbridos destaca-se também o BRS 323, resultante do programa de melhoramento da Embrapa, com produtividade de aproximadamente 1800 kg ha-1 e teor de óleo de 42%.

Por ser uma planta alógama, ou seja, que faz fecundação cruzada há necessidade de insetos polinizadores (polinização entomófila), para que haja a produção de aquênios. Pode-se dizer que 90% da polinização realizada dependem da espécie de abelha africanizada Apis mellifera L. Dessa forma, outra vantagem é a possibilidade de associação do cultivo do girassol com a apicultura, sendo possível a produção de 20 a 30 kg de mel de excelente qualidade por hectare de girassol plantado.

Como visto ao longo deste texto, o girassol é uma das mais versáteis culturas já existentes. Dentre os produtos derivados do girassol, temos materiais para isolamento acústico, silagem para alimentação animal, solventes orgânicos, óleo redutor de colesterol (excelente para a saúde humana), além do óleo acrescido de etanol e catalisador, e por que não, possibilitar/facilitar seu uso para a fabricação de biocombustível?

Nos últimos anos, a produção nacional de girassol tem crescido exponencialmente, acompanhando o crescimento do consumo interno, tornando-se uma opção de negócio bastante promissora e rentável. Características como o grau de pureza, tornam o óleo de girassol um excelente biocombustível, sem que haja a necessidade de adaptação de motores, como acontece com outros combustíveis vegetais. O biocombustível de girassol tem rendimento de 10% a mais que o diesel comum. Com certeza há que se pensar nessa possibilidade.