Cotidiano

MORTES EM CRUZEIRO DO OESTE

Ex-namorado causador de explosão já era condenado por ter matado primeira esposa

01/09/2020 20H35

O metalúrgico Clóvis Sanches dos Santos, 43 anos, foi um homem com uma vida amorosa conturbada, marcada pela violência e pela morte.

Na noite desta segunda-feira (31) ele escreveu de uma forma trágica o capítulo final do seu relacionamento com Marcilene Aparecida Pavão, de 39 anos.

MORTES

Segundo a polícia, ele provocou a sua morte e da sua ex-namorada com a explosão de um botijão de gás, no interior da casa de Marcilene, em Cruzeiro do Oeste, a 30 km de Umuarama. Os dois morreram na hora e os corpos ficaram carbonizados e irreconhecíveis.

EX-ESPOSA

Esse não foi o primeiro crime envolvendo violência doméstica que Clóvis Santos cometeu. Em 2016, foi condenado a cumprir 18 anos de prisão pela morte da ex-esposa, Adrielli Oviedo dos Santos, então com 18 anos, ocorrida no bairro Arco-Íris, em Umuarama. Adrielli foi morta em sua cama, com 13 facadas. A filha de apenas três meses de idade a época, foi deixada em seus braços e com os respingos do sangue da mãe.

TORNOZELEIRA

Em julho de 2019 Santos deixou a Penitenciária de Cruzeiro do Oeste (Peco) depois de receber o benefício de cumprir o restante da pena sob monitoramento eletrônico através de tornozeleira. Como estava sendo vigiado a distância, ele teve que fixar residência em Cruzeiro do Oeste. Pouco depois, conheceu Marcilene, que sabia do passado do então namorado.

SEM EXPLICAÇÃO

Para a mãe de Clóvis dos Santos, Edineia dos Santos, de 63 anos, o que aconteceu não tem explicação.

“Eu conversei ontem (31) com ele durante todo o dia. Ele me mandou diversos áudios onde dizia que não faria nada contra ela, mas que não iria voltar para a cadeia. Que iria por um fim em tudo, mas que iria fugir e não fazer mal para ela. Eu estava sentindo que havia algo errado. Nem consegui comer e quando meu outro filho me avisou, meu Deus”, relatou aos prantos a mulher franzina e de cabelos brancos.

DNA

Ela (a mãe), o marido e um sobrinho saíram de Paiçandu e foram até o Instituto Médico Legal (IML) de Umuarama para fazer o reconhecimento oficial na tarde desta terça-feira (1º), mas pelo corpo estar carbonizado, foi apenas coletado material genético. “Me disseram que só daqui a 60 dias sai esse resultado do DNA”, contou.

Em Cruzeiro do Oeste eles foram até a casa onde a tragédia ocorreu. Buscavam pelas chaves do VW Gol vermelho de Clóvis dos Santos, que ainda estava parado na rua de trás da rua Ana Longuini, no Jardim América. O veículo estava estacionado em frente ao terreno baldio que faz fundo com a casa da vítima.

O CRIME

Segundo o delegado da Polícia Civil de Cruzeiro do Oeste Izaias Cordeiro de Lima, Santos pulou o muro dos fundos da casa, que tem cerca de 1,5 metro, entrou no imóvel, rendeu Marcilene, a trancou no quarto dos fundos, trancou janela e porta, buscou o botijão de gás, deixou o inflamável se espalhar pelo ambiente e acendeu o fogo, provocando a explosão.

A EXPLOSÃO

“Foi um barulho muito forte. Parecia que foi dentro da minha casa dai saímos para fora com medo. Quando meu filho olhou na casa ao lado, já viu o fogo. Tudo tremeu”, relatou a vizinha, que trabalhava com Marcilene em um frigorífico da cidade.

FOGO

A vizinha contou que de imediato o filho e outros vizinhos se mobilizaram com extintores veiculares e água para tentar conter o fogo. “Quando eu vi a Biz dela no corredor da casa, tive a certeza de que ela estava lá dentro. Bateu um desespero. Começamos a gritar por ela. Chegaram a quebrar a porta de vidro para tentar entrar para a socorrer, mas o fogo não deixava”, relatou.

DESTRUIÇÃO

Os bombeiros chegaram na sequência e rapidamente conseguiram conter as chamas. A casa ficou com rachadura e fuligem muito negra em todos os cômodos. O quarto onde o incidente ocorreu foi totalmente consumido pelo fogo.

Da janela do cômodo ficou apenas o buraco enorme na parede e os sinais da destruição. Os corpos foram encontrados próximos ao botijão. Clóvis e Marcilene já estavam sem vida.

“A princípio acreditamos que eles morreram com a explosão”, afirmou o delegado. Um perito do Instituto de Criminalística esteve no local e apontou que a mangueira do botijão havia sido cortada. Um laudo do IML deve apontar de forma conclusiva a causa da morte. Segundo o delegado, a tornozeleira de Clóvis deixou de registrar o monitoramento no momento da explosão.

MEDIDA PROTETIVA

Segundo o delegado Izaias Cordeiro, Marcilene tinha uma medida protetiva contra Clóvis dos Santos desde o último dia 03 de agosto. “Ele a agrediu em um pesqueiro no dia 02 de agosto. A Marcilene formalizou o boletim, ela foi ouvida, ele também. O Clóvis dos Santos foi indiciado por violência doméstica e já estava sob monitoramento eletrônico pela morte da ex-esposa”, relatou o policial.

Infelizmente o papel emitido pela Justiça não foi suficiente para manter Marcilene viva.

BRIGAS CONSTANTES

Segundo a vizinha as brigas do casal eram constantes. “A gente ouvia as discussões. Não tinha como não ouvir. Falavam alto e as discussões chegavam até a calçada. Eu tinha muito medo por ela de que uma hora fosse acontecer uma tragédia. Quando ela se atrasava no trabalho eu já ficava preocupada, pensando que poderia ter ocorrido algo de ruim”, relatou a vizinha e colega de trabalho.

O CASAL

O casal ficou junto por mais de seis meses. No último feriado de ano novo Clóvis dos Santos levou Marcilene para conhecer a sua família, na região de Maringá. “Eles chegaram a morar juntos, mas apenas por três meses”, contou a mãe de Clóvis.

Em março, Marcilene mudou para a casa da rua Ana Longuini, em um bairro próximo ao trabalho. O casamento chegou ao fim, mas não o relacionamento, que passou a ter muitas discussões, segundo relato de vizinhos.

MARCILENE

Ela morava sozinha e sua família é de Eldorado, no Mato Grosso do Sul. A mãe e duas irmãs também estiveram no IML onde material genético foi coletado e vão ter que vivenciar o luto pela perda por pelo menos dois meses antes de poder sepultar o corpo de Marcilene.

Elas também foram até a casa de Marcilene, recolher o pouco que o fogo não consumiu, com a ajuda de outra vizinha da casa. Saíram do local antes dos parentes de Clóvis dos Santos chegarem.

MORTE DA EX-ESPOSA

A história de violência doméstica de Clóvis Sanches dos Santos começou bem antes. Na noite de 03 de março de 2013 ele matou com 13 golpes de faca a ex-esposa, Adrielli Oviedo dos Santos, então com apenas 18 anos. O crime foi cometido na cama da vítima e na casa de seu pai, no conjunto Arco-Íris, em Umuarama. Santos fugiu, mas antes deixou a filha do casal, uma menina com apenas três meses de vida, nos braços da mãe.

Familiares encontraram a vítima e chegaram a acionar socorro, mas Adrielli já estava morta. Ela havia se separado de Santos, que inconformado, tentava reatar a relação. Santos foi preso na residência de sua mãe, em Maringá quatro dias após o crime e permaneceu preso até 2019, quando saiu sob monitoramento eletrônico.