Cotidiano

SETEMBRO VERDE

“Eu não gostava… até eu entrar”: a nova visão de um enfermeiro sobre a doação de órgãos

16/09/2025 14H26

Jornal Ilustrado - “Eu não gostava… até eu entrar”: a nova visão de um enfermeiro sobre a doação de órgãos

Setembro Verde é o mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos. Uma campanha que busca dar voz a histórias de esperança, de superação e, muitas vezes, de mudança de perspectiva. É nesse contexto que o enfermeiro Willyan Ferrer Maciel, integrante da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT) do Hospital Uopeccan, compartilha a própria trajetória de transformação pessoal.

Há dois anos na comissão, Willyan admite que, antes de conhecer de perto a rotina da equipe, via a doação de órgãos com desconfiança e certo desconforto. “Eu não gostava… até eu entrar. Sentia que era uma troca de favores, que o acolhimento às famílias era motivado apenas pela busca por um órgão”, relembra. Mas a prática diária no CIHDOTT mudou radicalmente sua visão.

Acolhimento antes de qualquer decisão

A atuação da CIHDOTT começa ainda na chegada de pacientes que podem vir a se tornar potenciais doadores. A equipe multiprofissional acolhe a família, explica cada etapa do processo, presta apoio emocional e esclarece dúvidas. “A doação de órgãos é consequência de um bom atendimento, humanizado e transparente. Não estamos em busca do órgão, mas em busca de um atendimento digno para aquela família”, explica Willyan.

Ele lembra que 90% das famílias nunca conversaram sobre doação antes do momento de perda. “Ali, em meio ao luto, os familiares muitas vezes não conseguem lembrar como era aquela pessoa. É nesse momento que buscamos recuperar sua história: se era solidária, se gostava de ajudar, se já fazia doações. Não é convencer a família, é mostrar que esse gesto pode ajudar no luto e transformar a dor em esperança.”

Apesar do trabalho humanizado, a desinformação ainda é um dos maiores obstáculos. Filmes, novelas e boatos alimentam mitos sobre desligamento de aparelhos ou supostos privilégios de pacientes ricos em detrimento dos mais humildes. “Essas ideias equivocadas atrapalham muito. Nosso protocolo é fiel, transparente e verdadeiro. O diagnóstico de morte encefálica é criterioso e não existe favorecimento. A confiança da família é conquistada no diálogo e no esclarecimento”, ressalta.

Números que revelam a realidade

De acordo com a Organização de Procura de Órgãos (OPO) de Maringá, responsável pela macrorregião Noroeste do Paraná, entre janeiro e julho de 2025 foram registradas 127 notificações de potenciais doadores. Dessas, 77 resultaram em entrevistas, com 50 consentimentos familiares (64,9%) e 27 recusas (35,1%). No total, 38 doações foram efetivadas, representando 29,9% das notificações. Nos quatro hospitais de Umuarama, a média de conversão de autorização em doação efetiva é de 50%.

O Paraná se mantém como um dos estados com o maior volume de doação no Brasil, com uma média 94% superior à nacional.

Em 2015, o Estado ocupava a quinta posição no ranking da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Nos anos de 2023 e 2024, com 42,5 e 42,3 doações por milhão de população (pmp), respectivamente, o Paraná foi líder em doação. Nos primeiros seis meses de 2025, conforme relatório da ABTO, o Paraná atingiu a marca de 37,9 doações por milhão de população, enquanto no país esse índice é de 19,5.

De acordo com dados parciais de 2025, o Paraná ocupa a segunda colocação entre os estados brasileiros com o maior volume de doação de órgãos, ficando atrás somente de Santa Catarina, com 42,4 pmp. O Paraná segue à frente de estados como Rondônia (30,9 pmp), Rio de Janeiro (23,2 pmp), Mato Grosso do Sul (22,7 pmp) e São Paulo (22,5 pmp).

Um gesto que eterniza vidas

Para Willyan, o maior aprendizado foi perceber que a doação de órgãos vai muito além da medicina: é sobre humanidade. “A pessoa te abraçar e agradecer, mesmo em um momento de luto, é uma das coisas mais gratificantes que encontrei no CIHDOTT”, relata.

No Setembro Verde, a mensagem é clara: mais do que declarar-se doador, é fundamental que a família saiba desse desejo. A decisão final é sempre dos familiares. Por isso, conversar em vida é o primeiro passo para que um gesto de solidariedade possa transformar a dor em vida para outras pessoas.