EM UMUARAMA

A falta de mão de obra qualificada deixou de ser uma preocupação isolada de alguns setores e passou a afetar diretamente a economia de Umuarama e de todo o país. Empresas encontram dificuldades para preencher vagas, formar novos profissionais e manter equipes qualificadas, enquanto instituições de ensino buscam adaptar seus cursos às novas exigências do mercado. O resultado é um cenário de aumento dos custos de produção, atrasos em serviços, maior investimento em tecnologia e preocupação crescente com o futuro.
Ouvidos pelo Jornal Umuarama Ilustrado, o diretor comercial da Construtora e Imobiliária Morena, Moacir Silva, o proprietário da Auto Center Paraíso, Almir Souza, e representantes do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) foram unânimes ao afirmar que o principal obstáculo hoje não é a falta de vagas, mas a ausência de trabalhadores qualificados e interessados em seguir carreiras técnicas.
Para Moacir Silva, a construção civil vive um dos momentos mais delicados de sua história em relação à contratação de profissionais.
Segundo ele, ainda é possível encontrar candidatos para funções que exigem pouca experiência, mas profissionais especializados, como pedreiros, carpinteiros e, principalmente, mestres de obras, tornaram-se escassos.
“O mestre de obras precisa dominar conhecimentos em alvenaria, elétrica, hidráulica, pintura e carpintaria. Hoje quase não existem profissionais com essa formação ampla”, afirma.
Ele explica que boa parte da mão de obra mais experiente está próxima da aposentadoria, enquanto poucos jovens demonstram interesse em ingressar na profissão.
“Nós temos mestres de obras com 15, 20 e até 27 anos de empresa. Quando eles saírem, quem vai substituí-los?”
A dificuldade já interfere diretamente no cronograma dos empreendimentos. Conforme Moacir, desde 2020 houve queda na produtividade e maior dificuldade para formar equipes completas.
O processo seletivo também mudou. Embora currículos continuem chegando para áreas administrativas e comerciais, encontrar profissionais qualificados para a produção tornou-se um desafio.
“Muitas vezes entrevistamos cinquenta pessoas para contratar apenas uma ou duas.”

A escassez de trabalhadores qualificados também elevou significativamente os custos da construção civil.
Moacir estima que somente a dificuldade de contratação represente aproximadamente 3% do custo total de uma obra, percentual que, em grandes empreendimentos, representa milhões de reais.
Além disso, o setor enfrenta simultaneamente a alta dos materiais de construção e a dificuldade para repassar esses aumentos ao consumidor.
“O empresário paga salários maiores, mas a produtividade caiu. Ao mesmo tempo, o mercado não aceita aumentos proporcionais no preço dos imóveis.”
Segundo ele, essa combinação reduz as margens das construtoras e pressiona todo o mercado imobiliário.
Na avaliação do empresário, caso esse cenário permaneça, os imóveis continuarão encarecendo e parte da classe média terá cada vez mais dificuldade para conquistar a casa própria, aumentando a procura por imóveis para locação.

O problema não se restringe à construção civil. Na área da mecânica, o empresário Almir Souza, proprietário da Auto Center Paraíso, afirma que a dificuldade para contratar profissionais nunca foi tão grande em seus 35 anos de atuação.
A oficina, que completa três décadas de funcionamento, conta atualmente com 14 colaboradores, sendo oito mecânicos. Muitos deles trabalham na empresa há mais de 20 anos.
“Precisamos valorizar quem está conosco porque, se perdermos esses profissionais, é muito difícil encontrar outros para substituí-los.”
Segundo Almir, há alguns anos era comum receber aproximadamente um currículo por dia. Hoje a realidade é completamente diferente. “O último currículo que recebi foi há cerca de seis meses.”
Nem mesmo vagas para ajudantes despertam interesse. “Antigamente os próprios pais traziam os filhos para aprender a profissão. Hoje pagamos o piso da categoria e, mesmo assim, não encontramos candidatos.”
Outro desafio é a rotatividade entre os mais jovens. “Muitos entram e logo desistem porque não querem um serviço que exige esforço físico.”

Assim como ocorre na construção civil, a falta de qualificação também preocupa o setor automotivo.
Durante décadas, a oficina formou seus próprios mecânicos, mas hoje essa tarefa tornou-se cada vez mais difícil. “A maioria chega sem preparo e falta interesse em aprender”, explica Almir.
Além disso, a rápida evolução tecnológica exige investimentos constantes em capacitação.
Os funcionários participam regularmente de cursos sobre novas tecnologias automotivas, incluindo sistemas eletrônicos e veículos elétricos. “Quem não se atualiza acaba ficando para trás.”
Mesmo contando com uma equipe experiente, Almir demonstra preocupação com o futuro. “Daqui a cinco anos a situação pode ficar muito difícil. Os profissionais mais antigos vão se aposentar e praticamente não existem jovens aprendendo a profissão.”

A percepção das empresas também é compartilhada pelo Senai.
Segundo o vendedor do Sistema Fiep, Paulo Santos, o comportamento das novas gerações mudou significativamente.
“Muitos jovens procuram áreas ligadas à tecnologia, mídias digitais e informática, enquanto profissões industriais acabam ficando em segundo plano.”

Ele destaca que as empresas visitadas pela instituição relatam constantemente a existência de vagas abertas, mas sem candidatos preparados para ocupá-las.
“O nosso trabalho é justamente entender essas necessidades e oferecer cursos que atendam à demanda do setor produtivo.”
A pedagoga do Senai, Patrícia Fernandes afirma que o desafio não está apenas em atrair novos alunos, mas também em mantê-los até a conclusão dos cursos.
Segundo ela, mesmo oferecendo capacitações gratuitas, o Senai enfrenta dificuldades para formar turmas e registra índices significativos de evasão.
Neste ano, por exemplo, o curso técnico em Edificações iniciou uma turma com 25 alunos e atualmente conta com cerca de 17 estudantes.
Grande parte dos cursos é estruturada a partir das necessidades apresentadas pelas próprias empresas da região.

Entre as formações atualmente ofertadas em Umuarama estão os cursos técnicos de Eletrotécnica e Eletromecânica, voltados principalmente às demandas da indústria regional.
Patrícia destaca ainda a importância do incentivo familiar para que os jovens permaneçam nos estudos e desenvolvam uma carreira técnica.
Para enfrentar a escassez de mão de obra, empresas começam a investir cada vez mais em automação e inovação.
Moacir Silva acredita que a tecnologia será uma das principais alternativas para compensar a dificuldade de contratação, embora reconheça que os investimentos necessários ainda estejam fora da realidade de muitas pequenas empresas.
No mesmo sentido, Paulo Santos observa que diversas indústrias já ampliam investimentos em equipamentos modernos para reduzir a dependência de mão de obra.
Segundo ele, o profissional do futuro precisará dominar tecnologias cada vez mais avançadas, o que torna a qualificação permanente indispensável.
Apesar das dificuldades, empresários e representantes do Senai concordam que o problema pode ser enfrentado por meio da união entre empresas, instituições de ensino, poder público, famílias e sociedade.
Para eles, além de ampliar a oferta de cursos profissionalizantes, será necessário valorizar novamente as profissões técnicas, aproximar os jovens do mercado de trabalho e incentivar a formação de novos profissionais capazes de atender às necessidades da economia regional.
Sem essa mobilização, alertam, a escassez de mão de obra qualificada tende a se intensificar nos próximos anos, comprometendo o crescimento das empresas e elevando ainda mais os custos para toda a sociedade.
