Colunistas

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Cura médica: a vida em mãos alheia

17/02/2019 14H32

O filósofo humanista Erich Fromm nos ensina que o amor é a única resposta sã e satisfatória ao problema da existência humana. Existimos para amar, nascemos com o desejo de amar e de sermos amados. Amar dá sentido e propósito para as nossas vidas.

O que constitui o médico como profissional é um relacionamento pessoal especial com outro ser humano que está doente. Essa ligação entre a pessoa médica e a pessoa que tem sua existência ameaçada pelo ataque da doença é algo muito concreto e intenso. De fato, é a base ou fundamento da ética médica. As obrigações básicas dos médicos (e das enfermeiras) são derivadas da natureza desse relacionamento especial com pessoas doentes. Somente apreciando o que significa ser doente podem os médicos começar a compreender o que é requerido eticamente deles como cuidadores médicos. A ética neste sentido é um conjunto vivido de obrigações derivadas de um compromisso com outras pessoas que o profissional aceita. Uma ética baseada no relacionamento entre médicos e pacientes é essencialmente uma ética da virtude, pautada no amor ao próximo.

Para Leo Pessini, estudioso da bioética, a doença grave é um grande insulto à própria integridade do ser humano. O equilíbrio costumeiro entre a pessoa e o mundo é violentamente interrompido por sintomas, ferimentos, incapacidades ou desfigurações. São muitas as perdas associadas com essas mudanças. A pessoa é imediatamente distanciada das outras e passa a carregar um peso. Características que fazem dos seres humanos o que são/estão agora reduzidas no paciente. A doença fere o âmago dos seres humanos e diminui a vida no que essa tem de peculiarmente espiritual, ético e social. Na doença grave, sofre-se um amplo agravo, acompanhado de uma devastadora perda do poder de remediar o agravo sofrido. O paciente sucumbe nas mãos dos médicos à espera da cura.

O bom médico (ou o bom enfermeiro) não é, nessa perspectiva, apenas aquele que atende às expectativas sociais, mas aquele cujo comportamento tem por foco as perdas que a pessoa com doença grave sofreu. O bom médico deve empenhar-se por responder como um ser humano a outro ser humano em aflição.

A forma que toma o cuidado é determinada por todas as maneiras pelas quais a doença priva e diminui o paciente que pede essa ajuda. Muitas queixas que as pessoas fazem hoje aos profissionais médicos podem ser compreendidas como queixas ao estilo de relacionamento profissional (ausência de diálogo é uma delas; maus tratos é outra). Uma medicina mais humana finca raízes da ética médica nas razões originais que levam as pessoas a decidir seguir uma carreira médica (geralmente, queriam ajudar pessoas doentes). Nessa trajetória profissional é importante verificarmos periodicamente como estamos procedendo. É fácil perder-nos no caminho.

Logo, curar a doença é importante. Mas, mesmo que curar não seja possível, cuidar sempre é. Cuidar com amor e respeito.

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Advogado no Paraná

Professor do Curso de Direito da UNIPAR

iraja@prof.unipar.br