OPERAÇÃO DA PM

“Umuarama não é bagunça.” A frase dita pelo comandante do 25º Batalhão de Polícia Militar (BPM), tenente-coronel Carlos Cesar de Souza Perez, em entrevista à imprensa, no início das operações de trânsito na cidade, deixou de ser apenas um posicionamento firme e passou a ganhar forma prática logo nos primeiros dias à frente da unidade. Ele assumiu o comando no final de janeiro e, já no início da gestão, determinou a intensificação das operações de trânsito na cidade. Em cerca de um mês de fiscalizações, 104 motocicletas foram apreendidas — muitas delas com escapamentos adulterados, principal alvo das ações desencadeadas pela Polícia Militar.
As operações surgiram em resposta a uma antiga reivindicação da população. Nas redes sociais, moradores manifestavam com frequência a indignação diante do barulho provocado por motocicletas com escapamentos irregulares, especialmente no período noturno. O ruído excessivo não apenas incomodava, mas comprometia o descanso, afetava trabalhadores que precisam acordar cedo, idosos, pessoas em tratamento de saúde e, de maneira ainda mais sensível, crianças e adultos com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Operação no final de semana
No último sábado (28), por exemplo, mais uma operação do tipo “blitz”, também conhecida como pinçamento, foi realizada pela Polícia Militar. O foco foi a fiscalização de motocicletas com escapamento adulterado, infração prevista no artigo 230, inciso XI, do Código de Trânsito Brasileiro (CTB). Durante a ação, 25 motocicletas foram recolhidas ao pátio do 25º BPM por diversas irregularidades administrativas. Ao todo, 30 autos de infração foram lavrados.
Segundo a PM, entre as irregularidades mais recorrentes estavam licenciamento em atraso, condução de motocicleta por pessoa não habilitada, condutor com Carteira Nacional de Habilitação suspensa, escapamento adulterado, ausência ou irregularidade de equipamentos obrigatórios, pneus em mau estado de conservação, além de casos de condução sem capacete e uso de calçados inadequados. Durante as abordagens, também foram identificados indivíduos com passagens por tráfico de drogas e registros de infrações como dirigir sob influência de álcool e entorpecentes.
Desde a chegada do novo comando ao 25º BPM, a intensificação das fiscalizações passou a integrar uma estratégia mais ampla de organização do trânsito e reforço da segurança pública. O número de 104 motocicletas apreendidas em aproximadamente um mês evidencia o alcance das operações e o volume de irregularidades que circulavam pela cidade.

O impacto do barulho para autistas
Para muitas famílias, no entanto, o impacto das ações vai além da aplicação da lei. Representa alívio, tranquilidade e qualidade de vida. É o caso de Luana de Vita, mãe de três filhos. A filha mais velha, Lara, de 11 anos, foi diagnosticada com autismo nível 2, além de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e Transtorno Opositor Desafiador (TOD). Segundo Luana, os escapamentos adulterados eram um dos principais gatilhos de crise para a menina.

Ela relata que as motocicletas costumavam passar com frequência pela rua onde mora, especialmente à noite. Lara, que já enfrenta dificuldades para dormir, acordava assustada com o barulho e não conseguia mais retornar ao sono. “Quando começava o som, ela tapava os ouvidos e dizia que o ouvido estava zunindo. Muitas vezes isso já iniciava uma crise”, conta a mãe. Após noites mal dormidas, a menina acordava irritada, mais sensível e emocionalmente desregulada.
O problema não se restringia ao período noturno. Durante o dia, ao caminhar pela rua, o simples som de uma motocicleta com escapamento adulterado já era suficiente para provocar susto e choro. “Se ela vê uma moto vindo com barulho, para o que está fazendo e volta. Fica com muito medo”, relata Luana. O receio tornou-se tão intenso que Lara passou a evitar qualquer contato com motocicletas, inclusive a do próprio pai. Mesmo após insistência, ela se recusa a subir na moto, associando o veículo ao susto e ao desconforto auditivo.
A sensibilidade auditiva é uma característica comum em muitas pessoas com TEA. Sons intensos ou inesperados podem causar dor, angústia e crises emocionais. Para essas famílias, o barulho de um escapamento adulterado não é apenas incômodo: é um fator desencadeador de sofrimento real.
Luana também enfrentou um tratamento contra o câncer entre os anos de 2024 e 2025. Durante esse período, além do desgaste físico, das dores e da insônia, o barulho constante agravava ainda mais a situação. “Eu vivia cansada, com dor, e muitas vezes acordava por causa dessas motos e não dormia mais. A moto passava, os cachorros latiam e ninguém descansava”, lembra.
Associação destaca riscos
A presidente da Associação de Pais e Amigos dos Autistas de Umuarama e Região (AMA), Tayla Bruna de Oliveira Conceição, reforça que o impacto do barulho excessivo em pessoas com TEA é comparável ao efeito provocado por fogos de artifício. Segundo ela, o ruído intenso pode desencadear crises severas, choro inconsolável e até episódios de autoagressão. Em casos de predisposição neurológica, o alto nível de estresse pode levar a convulsões.
Para a entidade, as operações da Polícia Militar representam uma medida que ultrapassa o campo da fiscalização de trânsito e alcança a esfera da inclusão social. Ao coibir escapamentos adulterados e reduzir a poluição sonora, o poder público contribui para que pessoas com autismo possam circular, estudar e viver com mais tranquilidade na cidade.
Segurança
De acordo com a PM, as operações seguem sendo realizadas em diferentes pontos de Umuarama e devem continuar de forma periódica. A Pm informou ainda que a atuação tem caráter preventivo, educativo e repressivo, buscando não apenas punir, mas conscientizar sobre a importância do respeito às normas de trânsito e, principalmente, ao próximo.
