Dr. Eliseu Auth

Eliseu Auth

Uma baita bobagem

17/08/2020 20H01

Lembro como se fosse hoje. O Padre Caldana dava aula de Ontologia no seminário maior de Viamão. Ao falar das propriedades do “ser”, existência e essência, exemplificou com a cor da pele como forma de ser na mesma essência de ser humano. Aí foi à axiologia, falou de valores e deu uma aula magna sobre a igualdade entre os homens, fossem da cor que fossem.

Nasci na Linha Salto, uma comunidade de alemães, na barranca do rio Santo Cristo, na época, município de Santa Rosa. Até oito anos, pouco entendia de português. Missas tinham sermão em alemão e o culto presidido pelo professor Nicolau Meinerz, também era em alemão. Em casa e na igreja, a gente rezava em alemão. Só na Escola, fomos obrigados a falar o português. Foi um alvoroço, mas foi bom. Cadê os vocábulos? Cadê verbos e declinação? Pobre do velho professor que também tinha dificuldades para lidar com o idioma pátrio. Só três colegas eram negros e não falavam o alemão: Adão, Anulino e Alvarino, nunca esqueci os nomes. Um dos melhores amigos que tive era o Adão, guri inteligente e muito generoso. Com ele, melhorei o meu português. Convivíamos muito bem com os colegas negros que nos ensinaram que somos iguais e ainda melhoraram o nosso português “rachado”. O velho mestre não admitia discriminação. Ninguém se achava melhor, nem mais que outro e não me consta que tenha havido algum gesto racista. Se houve, não vi.

Essas coisas da minha infância me vieram à lembrança nestes dias em que nos deparamos com gestos e fatos deprimentes de racismo. Nem vou citá-los de tão estúpidos que são. Eles doem demais em quem tem outra cor, na mesma essência de seres humanos que somos todos. Se preconceituosos e racistas tivessem assistido as aulas do Padre Caldana ou se tivessem estudado na Escola “La Salle” de Linha Salto, não pensariam que são de raça superior. Saberiam que isso é uma baita bobagem.

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).