Umuarama

ARTE

Tradição da escultura em madeira resiste no trabalho de artista de Umuarama

24/11/2025 10H17

Jornal Ilustrado - Tradição da escultura em madeira resiste no trabalho de artista de Umuarama

Em um espaço simples, quase improvisado, sem porta, apenas fechado por um portão de grades sempre abertas, funciona o ateliê onde Belarmino Ramos dos Prazeres, de 74 anos, transforma blocos de madeira em histórias eternizadas. Localizado na avenida Apucarana, próximo à Paróquia São Paulo, o ambiente guarda anos de dedicação a uma arte que ultrapassou fronteiras e chegou a residências, fazendas, igrejas do Paraná e até países da Europa, como França e Itália.

A reportagem visitou o artista na manhã de temperatura amena e ensolarada desta segunda-feira (18). Ao chegar, Belarmino trabalhava calmamente na imagem da Última Ceia — uma peça ainda em fase inicial. “Quando estou sem encomendas, faço obras aleatórias para vender, mas normalmente sempre tenho clientes”, explicou, sem tirar os olhos da madeira.

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Da Vila Progresso ao ateliê em Umuarama

Nascido em Vila Progresso, no município de Sabáudia, região de Arapongas, Belarmino mudou-se para Umuarama em meados de 1975, acompanhado dos pais. Antes disso, ainda na infância rural, descobriu a curiosidade pela arte. A inspiração surgiu de uma pequena imagem religiosa que pertencera aos padrinhos de sua mãe.

“Perguntei como aquilo tinha sido feito. Disseram que era madeira e canivete. Aí pensei: se eles conseguiram, eu também faço alguma coisa”, relembra. No Ano-Novo de 1971, esculpiu sua primeira obra: uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Guardou-a como lembrança do início de uma trajetória que jamais interrompeu.

O segundo trabalho, um policial, surgiu da admiração pela corporação. “Sempre respeitei e admirei a polícia. Então fiz um policial como homenagem”, comenta.

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Exposições, viagens e reconhecimento

Os primeiros anos foram dedicados à produção constante. Guardava as esculturas até formar um acervo de mais de 40 peças. Com esse material, passou a organizar exposições: abria salões, cobrava ingressos e levava a arte a diferentes cidades. Suas obras circularam por Umuarama, Cianorte, Foz do Iguaçu e até Curitiba.

Quando o irmão se mudou para a capital, as portas também se abriram por lá. Pouco tempo depois, Belarmino decidiu se dedicar às encomendas, deixando as exposições em segundo plano.

“Eu fazia em casa mesmo. Trabalhei muito. Era das quatro da manhã até nove da noite, só parava para comer. Depois que me casei, ajustei os horários, mas continuei firme”, conta.

Vida construída pela arte — e por muito esforço

Belarmino criou as duas filhas — hoje professoras — com o fruto da escultura. Ao lado da esposa, manteve também uma mercearia por 29 anos, o que ajudou a garantir estabilidade nos períodos mais incertos da profissão.

“A escultura sempre me sustentou. A mercearia veio depois e ajudou bastante. Graças a Deus deu tudo certo”, afirma.

Mesmo aposentado, continua ativo. A rotina varia conforme a demanda: há meses de muitas encomendas, outros mais tranquilos, mas o trabalho nunca deixou de “pingar”.

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O que os clientes procuram

A maior parte do público é religioso — imagens de Cristo, santos, anjos e cenas bíblicas são as campeãs de pedidos. Faz também placas, portas e quadros entalhados. Uma de suas obras mais detalhadas enfeita a parede da própria casa: a cena de dois irmãos com medo de atravessar uma ponte quebrada, recebendo a ajuda de um anjo da guarda. A profundidade das expressões e o movimento das roupas revelam o domínio total da madeira.

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O artista autodidata que aprendeu tudo sozinho

Belarmino nunca teve professor. “Sempre fui sozinho”, diz com simplicidade. Em determinado momento, percebeu que precisava aprimorar o desenho para aperfeiçoar as proporções das peças. Fez então um curso por correspondência, que lhe deu a base artística necessária.

“Aprendi o principal. Hoje, quando alguém pede um Cristo de 1,80m, já sei todas as medidas, do nariz ao pé”, explica.

Entre os trabalhos mais complexos, ele cita um retrato esculpido a partir de uma fotografia trazida por um cliente. A imagem era de uma senhora italiana. “Foi um desafio, mas ficou bem feito”, lembra.

Cinco décadas de criação contínua

Belarmino resume a própria trajetória com a mesma simplicidade da madeira bruta com que inicia suas peças: “Eu queria viver da escultura. E consegui.”

Entre ferramentas gastas pelo tempo e o cheiro marcante do pó de madeira que paira no ar, seu ateliê permanece aberto, quase como uma extensão da própria vida: sem portas, sem barreiras e sempre em movimento — do jeito que a arte costuma ser.

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