DIRETO DO PÉ

A chegada da temporada do morango já mudou a rotina da Vila Rural São Carlos, no distrito de Lovat, em Umuarama. Localizada às margens da PR-323, a comunidade voltou a receber um grande fluxo de visitantes que procuram muito mais do que a fruta. A proposta é viver uma experiência no campo: caminhar entre os canteiros, colher os próprios morangos diretamente do pé e conhecer de perto o trabalho desenvolvido pelas famílias que há décadas vivem da agricultura.
Logo no primeiro fim de semana da temporada, o movimento surpreendeu até mesmo os produtores. Em algumas propriedades, centenas de pessoas passaram pelo local ao longo do dia. Em outras, a estimativa chegou à casa dos milhares de visitantes entre sábado e domingo, confirmando que a colheita do morango já se consolidou como uma das principais atrações do turismo rural da região.

Criada em março de 1999 para abrigar famílias de trabalhadores rurais, a Vila Rural São Carlos encontrou na agricultura familiar sua principal fonte de renda. Ao longo dos anos, o cultivo do morango ganhou espaço e hoje divide protagonismo com outras culturas, como hortaliças e produção de leite. No entanto, é durante a safra da fruta que a comunidade vive seu período de maior movimento.
A experiência oferecida aos visitantes é simples e tem conquistado pessoas de todas as idades. Ao chegar à propriedade, cada família recebe uma caixa de papelão e segue para a plantação. Depois de escolher os frutos, basta pesar a colheita e efetuar o pagamento. O passeio agrada principalmente às crianças, que têm a oportunidade de entrar na lavoura e colher o alimento diretamente da planta.
A produtora Sirlei Fulgencio dos Santos, de 48 anos, conhece bem essa transformação. Ela mora na Vila Rural desde sua inauguração, há 29 anos, ao lado do marido, José Marcos, e da filha. A família trabalha com agricultura desde que chegou ao local e cultiva morangos há 28 anos, atividade que hoje representa a principal fonte de renda da propriedade.

Além dos morangos, eles também produzem hortaliças e leite, mas a fruta se tornou o carro-chefe do negócio. Atualmente, a família colhe aproximadamente 100 caixas de morango por dia, sendo cada caixa composta por quatro bandejas. Para dar conta da demanda durante a safra, contam ainda com diaristas que também residem na própria Vila Rural.

Segundo Sirlei, a abertura das propriedades para visitação aconteceu de forma espontânea. Durante anos, pessoas apareciam na propriedade perguntando se poderiam colher alguns morangos. Aos poucos, o costume cresceu, foi ganhando repercussão e acabou se transformando em tradição.
Hoje, a expectativa é receber centenas de visitantes durante a safra. Em dias de maior movimento, mais de cem pessoas passam apenas pela propriedade da família.
Neste ano, eles investiram pela primeira vez em uma estufa com 4.300 pés da variedade Camarosa, conhecida pelo sabor mais doce. Embora as condições climáticas tenham atrasado o início da produção, a expectativa é de uma safra positiva. O quilo do morango colhido diretamente na propriedade está sendo vendido por R$ 35.
Outro exemplo do fortalecimento da agricultura familiar é a propriedade de Gilval Elias dos Santos, de 57 anos. Morador da Vila Rural há quase três décadas, ele começou a cultivar morangos há cerca de 14 anos, quando percebeu que a atividade seria mais rentável para sustentar a família.

Hoje, ao lado da esposa e do filho, Gilval cultiva morangos, hortaliças e outras verduras. A produção abastece pontos de venda em Umuarama, além de clientes de municípios vizinhos. Mesmo assim, a procura pela colheita diretamente na lavoura vem crescendo tanto que, segundo ele, já supera a capacidade de produção.
No primeiro fim de semana da temporada, aproximadamente 500 pessoas passaram por sua propriedade. O resultado foi uma redução na quantidade de frutas destinadas aos mercados, já que praticamente toda a produção foi colhida pelos visitantes.
Para ele, a tendência é que esse número aumente ainda mais nos próximos anos, impulsionando novos investimentos na ampliação da produção.

Na propriedade, são cerca de 4.500 pés cultivados em estufa da variedade Camarosa, enquanto outra área é destinada ao cultivo da variedade Dover, que apresenta maior produtividade. A família também recebeu apoio do Município para implantação da estufa, por meio de um programa que beneficiou diversos agricultores da região.
Quem também comemora a movimentação é o casal José Carlos da Silva, de 55 anos, e Eliane Pereira da Silva. Moradores da Vila Rural desde a inauguração, eles cultivam morangos há cerca de 30 anos e decidiram abrir oficialmente a propriedade para visitação há apenas três anos.

O sucesso foi imediato.
Segundo José Carlos, somente entre sábado e domingo aproximadamente quatro mil pessoas passaram pela propriedade durante a abertura da temporada. O intenso movimento fez com que cerca de 900 quilos de morangos fossem colhidos apenas no fim de semana, volume muito superior ao normalmente destinado aos pontos comerciais.
Para atender tantos visitantes, toda a família participa da organização. Filhos, parentes e funcionários ajudam na recepção, distribuição das caixas e atendimento ao público durante os dias de maior movimento.

Embora o turismo rural tenha ganhado força recentemente, a produção exige planejamento durante praticamente todo o ano. O plantio das mudas ocorre entre abril e maio, enquanto as primeiras colheitas costumam começar em junho. O auge da safra acontece entre julho e setembro, período em que a qualidade da fruta e o clima favorecem a visitação.
Na região de Lovat, estima-se que existam aproximadamente 25 produtores de morango, sendo cerca de seis apenas na Vila Rural São Carlos. Muitos deles conciliam o cultivo da fruta com hortaliças, leite e outras culturas, garantindo renda durante todo o ano.

O resultado é um ciclo que beneficia toda a comunidade: fortalece a agricultura familiar, movimenta a economia local, incentiva o turismo rural e aproxima a população do trabalho desenvolvido pelos agricultores.

Com a procura aumentando a cada safra, a expectativa dos produtores é ampliar a produção nos próximos anos e consolidar definitivamente a Vila Rural São Carlos como um dos principais destinos do turismo rural no noroeste do Paraná.