Umuarama

Educação

Tempo gasto nas redes sociais está tomando o lugar da leitura dos livros físicos e digitais

21/09/2020 09H25

angela_russi_livros

O consumo de alimentos saudáveis é difundido globalmente para preservação da saúde do corpo, mas você já parou e pensou o que consumimos para manter a mente saudável? Em quatro anos o Brasil perdeu mais de 4,6 milhões de leitores de livros e muitos desses para as redes sociais.

Os dados são da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada entre 2015 a 2019, e ratificados pela escritora e alfabetizadora Ângela Russi. A professora acredita que este cenário pode proporcionar um prejuízo intelectual aos brasileiros, devido a pobreza de conteúdo consumido. “É nessas leituras rápidas e pobres de redes sociais e aplicativos de mensagem, que muita gente cai nas conhecidas fake News”, alertou.

De acordo com a 5ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró Livro em parceria com o Itaú Cultural, a internet e as redes sociais são razões para a queda no percentual de leitores, sobretudo entre as camadas mais ricas e com ensino superior. “A gente nota que a principal dificuldade apontada é tempo para leitura e o tempo que sobra está sendo usado nas redes sociais”, apontou acordo com a coordenadora da pesquisa, Zoara Failla.

O estudo mostra que 82% dos leitores gostariam de ter lido mais. Quase a metade (47%) diz que não o fez por falta de tempo. Entre os não leitores, 34% alegaram falta de tempo e 28% disseram que não leram porque não gostam. Esse percentual é 5% entre os leitores.

A internet e o WhatsApp ganharam espaço nas atividades preferidas no tempo livre entre todos os entrevistados, leitores e não leitores. Em 2015, ao todo, 47% disseram usar a internet no tempo livre. Esse percentual aumentou para 66% em 2019. Já o uso do WhatsApp passou de 43% para 62%.

LEITOR É LEITOR

Mesmo neste cenário de déficit de leitores, Ângela Russi acredita que a pessoa com hábito de ler pode até parar a leitura por alguns meses, por motivos diversos, mas sempre será um leitor. “Quem é leitor é leitor, podemos parar um mês ou dois meses, mas com o passar do tempo a pessoa vai voltar a ler”, acredita a escritora.

E na visão otimista da entrevistada, ela acredita que muitas pessoas começaram a ler com a pandemia do coronavírus. “O próprio jornal Umuarama Ilustrado divulgou matéria no início da semana falando do aumento na compra de livros no período de pandemia”, disse Ângela Russi.

ARTIGO DE LUXO

A escritora umuaramense também falou da dificuldade para conseguir comprar um livro, devido aos valores, principalmente agora com o aumento de impostos na indústria do livro. “O preço do livro é alto para muitas pessoas, é um artigo de luxo. Hoje eu posso dizer que tenho condições para comprar um livro, depois de muitos anos de trabalho, mas antes eu não conseguia e por isso li muito livro emprestado”, ressaltou.

FORMAÇÃO DE LEITORES

“A coisa mais linda do mundo é poder dar um livro para uma criança e ver que ela está interessada”, exclamou Ângela ao falar da formação dos leitores. Atuando na alfabetização de milhares de umuaramenses, a professora alerta os pais que o estímulo a leitura é o melhor presente para vida dos filhos. “A criança é como um solo fértil. Se você planta a semente e regar periodicamente ela vai crescer e florescer”, exclamou.

Contar histórias é uma das melhores formas de iniciar a vida de um futuro leitor, orientou a professora. “Quer levar o gosto da leitura para criança? Conte histórias de uma forma atrativa para ela, pois a criança é lúdica. Minha mãe tinha pouca leitura e ela contou a história de José da Bíblia para mim, quando eu era pequenininha. Nunca mais esqueci e até hoje quando vejo essa história me lembro da simplicidade da minha mãe contando. A leitura é mágica e transformadora”, explicou.

LER O MUNDO

O ser humano é movido pela comunicação, é um ser social e vive em bando desde os primórdios. Desta forma, a leitura é essencial para a plasticidade do cérebro e essencial ler o mundo. “O leitor consegue interpretar o mundo é ver além das linhas. A leitura não está só no livro a leitura é o todo. Lemos tudo ao nosso redor, a comida, as pessoas, os lugares e os animais. Quanto mais lermos livros diversos, mais teremos o potencial para decifrar os códigos da vida” finalizou Ângela.

Dados da pesquisa

De 2015 para 2019, a porcentagem de leitores no Brasil caiu de 56% para 52%. Já os não leitores, ou seja, brasileiros com mais de 5 anos que não leram nenhum livro, nem mesmo em parte, nos últimos três meses, representam 48% da população, o equivalente a cerca de 93 milhões de um total de 193 milhões de brasileiros. As maiores quedas no percentual de leitores foram observadas entre as pessoas com ensino superior – passando de 82% em 2015 para 68% em 2019 -, e entre os mais ricos. Na classe A, o percentual de leitores passou de 76% para 67%.