Cotidiano

CALDEIRÃO

Superlotação e mortes acendem sinal de alerta para cadeia

23/09/2018 06H00

Umuarama – Após mais de um ano de calmaria os holofotes estão voltados para a cadeia pública de Umuarama. Em nove dias foram registradas duas mortes de detentos (uma autodeclarada lesão), um preso ferido na barriga e um quarto recluso levado as pressas ao hospital vomitando sangue.

Oficialmente a Polícia Civil afirma que são casos isolados e que não há aparente ligação entre eles. A assessoria de imprensa do Departamento Penitenciário (Depen) não se manifestou até o fechamento da edição.

RECEIO E MEDO

Entre os parentes de detentos, o clima é de receio e de medo pela integridade física de maridos, filhos e pais. Na manhã de sexta-feira (21), após o anúncio da segunda morte, familiares de outros presos aguardavam na porta da cadeia para a entrega de sacolas com alimentos e objetos pessoais.

Receosos, poucos quiseram se manifestar. Uma mulher, que pediu para não ser identificada, contou que o marido está preso há cinco meses por tráfico de drogas. “O vi na quarta-feira (19). A gente fica com medo de que algo aconteça sim. Não sei o que está acontecendo”, afirmou.

SUPERLOTAÇÃO

Até o fim da manhã de sexta-feira (21), a cadeia contava com 259 detentos, mais de quatro vezes a sua capacidade física, que é de 64 pessoas. Se considerarmos que das duas galerias existentes, uma está interditada desde agosto de 2017, após uma rebelião, o espaço físico disponível para abrigar esses homens é ainda menor. “Por conta da superlotação os presos não ficam recolhidos nas celas. Ficam soltos na galeria”, explicou o delegado operacional da 7ª SDP, Thiago Soares.

AÇÃO CIVIL PÚBLICA

A superlotação e o comprometimento da estrutura física do prédio já motivou o Ministério Público a ingressar com uma Ação Civil Pública, pedindo a interdição da cadeia. A Justiça concedeu parcialmente o pedindo, determinando que o detento não pode ficar mais do que 120 dias no local e depois deve ser remetido para uma unidade prisional adequada a situação individual de cada preso. Na prática, nada mudou. A cadeia ainda é um depósito de pessoas e o local é comparado a ‘um caldeirão em ebulição’.

MORTOS E FERIDOS

E enquanto a água borbulha, os casos começam a aparecer. No dia 12 de setembro, um preso de 32 anos foi levado pelo Samu ao hospital de plantão com dois ferimentos na barriga provocado por um ‘estoque’, arma artesanal feita a partir de um pedaço de ferro. No dia, ao médico socorrista, o detento afirmou que se auto lesionou para sair do local na tentativa de fugir de ameaças contra sua vida. O caso ainda está sendo investigado.

A ‘TERESA’

Seis dias depois, na terça-feira (18), Paulo Sérgio Sena, 40 anos, foi morto por companheiros, que usaram uma ‘teresa’ (corda artesanal feita com lençol) para o enforcar e o agredir, segundo a Polícia Civil. A morte foi anunciada anonimamente para a polícia pouco antes. Só não se indicou quem seria a vítima.

TRANSFERÊNCIA

Na quinta-feira (20) cinco presos foram transferidos para a Penitenciária Estadual de Cruzeiro do Oeste (PECO) por determinação da Justiça. O número está longe do ideal.

SUSPEITO DE ESTUPRO

De acordo com declaração da Polícia Militar no dia da morte, os detentos acusavam Sena de responder pelo crime de estupro. Essa versão não é confirmada pela Polícia Civil. Oficialmente Sena estava preso desde o dia 13 de maio por tráfico de drogas.

A terceira vítima, o detento Maicon Israel Viana de Castro, 23 anos, foi encontrado morto por volta das 6 horas desta sexta-feira (21). Ele estava com uma corda no pescoço e a causa da morte definida pelo IML foi asfixia mecânica por enforcamento.

A polícia informou que está investigando o caso, mas as primeiras informações dão conta de que pode ser um suicídio. E que a morte de Maicon não teria ligação com a morte de Paulo Sérgio. Maicon Castro estava preso por conta de um furto.

Os dois homens foram encontrados com cordas envolta do pescoço.

Os agentes do Depen chegaram até o detento morto nesta sexta-feira quando entraram na cadeia para socorrer outro preso, José Maicon Gomes da Silva, 23 anos, que estaria vomitando sangue. Ele não apresentava sinais de violência e foi encaminhado ao hospital de plantão.