Umuarama

Artigo

Será que sabemos ler ?

14/11/2022 09H04

Jornal Ilustrado - Será que sabemos ler ?

Em tempos de discussões políticas, muitas informações são publicadas, mas será que sabemos ler como pensamos? A maioria de nós não sabe. E cometemos muitas vezes o erro de *superinterpretação* que é tão grosseiro como uma subinterpretação. E muitos utilizam disso para pegar projeção nas redes sociais e carona com a polêmica causada, afinal todos querem ser vistos, mas pra não passarmos vergonha por aí, vamos esclarecer alguns pontos.

Um veículo de imprensa tem obrigação noticiar fatos não opiniões ou possibilidades. Umberto Eco escreve um livro sobre isso “Os Limites da Interpretação e Interpretação e Superinterpretação.”

Eco preocupa-se com os limites que o texto impõe à atividade interpretativa: entre a inacessível intenção do autor (intentio auctoris), muito difícil de se descobrir, além de irrelevante para a compreensão, e a discutível intenção do leitor (intentio lectoris), que desbasta o texto até atingir uma forma que sirva a seu propósito, existe a intenção do texto (intentio operis), que refuta interpretações absurdas e insustentáveis.

Assim, a superinterpretação — sempre mais polêmica porque exagerada — seria uma leitura inadequada de um texto. Ela caracteriza-se pela imposição da vontade do leitor, que desrespeita a intenção do texto, ao violar a sua coerência ou, então, ultrapassar seus limites semânticos, apoderando-se de seu sentido.

Assim como a escrita é um arte, a leitura também é. Esse texto é baseado na obra de Mortimer Adler “ A Arte da Leitura”.

Na leitura existem dois tipos de ignorância:

  • A Ignorância Abecedária, que se refere ao analfabetismo.
  • A Ignorância Doutoral, que é oriunda da leitura incorreta, e abrange o conceito grego conhecido como “Sofomania” ( diferenciar de sofismo). Esse tipo advém de leitura incorreta, ou “livrescos estúpidos” como descreveu Pope. Para que evitemos esse erro — o erro de que ler muito e ler bem são a mesma coisa — devemos contemplar a distinção entre tipos de aprendizado. Essa distinção exerce grande influência na arte de ler e na relação com a educação em geral. — Pesquisar douta ignorância.

Hoje 73% sabem ler e escrever, mas 65% tem algum nível de dificuldade. Pelo fato de pararmos de estudar e acharmos que sabemos o suficiente, estacionamos nossa leitura no nível elementar.

Há quatro níveis de leitura.

O primeiro nível de leitura de Leitura Elementar. Ela também poderia ser chamado de leitura rudimentar, leitura básica ou leitura inicial: o que importa aqui é o fato de que esse nível sugere que a pessoa deixou o analfabetismo e tornou-se alfabetizada.

Enquanto a pergunta do nível elementar é “O que diz a frase?”, a pergunta do nível inspecional, o segundo tipo de leitura, é “O livro é sobre o quê?”. Há outras perguntas similares, como “Qual a estrutura do livro?” ou “Em quais partes o livro é dividido?”.

O terceiro nível de leitura é chamado de Leitura Analítica. É uma atividade mais complexa e sistemática do que os dois níveis anteriores. Dependendo da dificuldade do texto a ser lido, a leitura analítica pode exigir muito ou pouco do leitor. A leitura analítica é a leitura propriamente dita, isto é, a leitura completa, plena — a melhor leitura possível. Se a leitura inspecional pode ser considerada a melhor e mais completa leitura possível em um período limitado de tempo, a leitura analítica é a melhor e mais completa leitura possível em um período ilimitado de tempo.

O quarto e último nível de leitura é a Leitura Sintópica. Trata-se do tipo mais complexo e sistemático de leitura — é o nível mais exigente, mesmo que os livros sejam em si fáceis e rudimentares.

Esse nível também poderia ser chamado de leitura comparativa. A leitura sintópica implica a leitura de muitos livros, ordenando-os mutuamente em relação a um assunto sobre o qual todos versem.

A leitura sintópica é mais sofisticada do que a mera comparação. Com os livros em mãos, o leitor sintópico estará apto a desenvolver uma análise que talvez não esteja em nenhum dos livros. Está claro, portanto, que a leitura sintópica é a mais ativa e trabalhosa de todas.

Por enquanto, basta saber que ler não é uma arte fácil — suas regras são quase desconhecidas. Os benefícios são tão grandes que vale a pena aprender suas técnicas.

Uma abordagem não anula a outra, leituras que sejam elementares ou uma leitura inspecional mal feita, que não buscam alcançar uma leitura mais avançada acabam gerando debates calorosos e infrutíferos que rendem no máximo mágoas a seus interlocutores, por conta de uma paixão exacerbada de seus pontos de vista, sem darem conta que um simples reconhecimento de uma necessária evolução em suas técnicas de leituras, os levariam a entendimentos maiores e concretos.

Esperamos que esse texto leve-os a uma autocrítica individual, da necessidade de buscarmos aprimorar a arte da leitura, consequentemente de nosso entendimento dos fatos que nos cercam.

Bruno Oliveira

Administrador de Empresas, Professor e Coordenador na UNIPAR – Universidade Paranaense