O gigante doente

O rio Paraná é o principal formador da Bacia do Prata e o segundo em extensão na América do Sul, atrás do Amazonas, mas ele vem encolhendo desde 2019 e nos últimos dias atingiu níveis nunca vistos desde 1940. Uma expedição realizada por representantes da Rota dos Pioneiros, a maior trilha aquática do Brasil, registrou cenas alarmantes de seca e morte do “Paranazão”, como o rio é conhecido na região.
Dados do Governo do Paraná, apontam que o Estado há mais de um ano enfrenta uma estiagem sem precedentes nos últimos 50 anos. Chuvas abaixo da média têm reduzido a vazão de rios e poços utilizados para abastecimento humano. A situação afeta também o colossal Rio Paraná. Com forme o biólogo e pesquisador Erick Xavier, que também participou da expedição, além das questões climáticas, o rio e toda sua biodiversidade sofre com o efeito das barragens hidroelétricas e falta de políticas públicas de restauração e conservação ambiental.
A expedição percorreu o trecho entre a praia da Amizade e o Porto Morumbi, região situada no Mato Grosso do Sul e segundo Xavier, mesmo atuado no rio Paraná há mais de doze anos, ele teve dificuldades para se localizar, pois o rio estava irreconhecível. “Em um trecho tive dúvidas do local que estávamos. A quantidade de areia e ilhas que estão se formando é impressionante. Outra situação assustadora são as rochas expostas, com mais de meio metro para fora da água”, lembrou.
Com a redução drástica do nível da água a navegação mercante no rio Paraná ficou impossível. A geração de eletricidade, a pesca, o fornecimento de água para consumo e irrigação também foram prejudicados. Fora do mundo humano, a biodiversidade do Paranazão está comprometida, pois suas várzeas estão secas, atingidas por incêndios e exploração agrícola. A situação do rio gera um impacto de proporções internacionais, afetando o Paraguai e Argentina.

O relatório da ONU, elaborado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC), divulgado no dia 08 de agosto, enfatizou que: “As mudanças climáticas provocadas pelo homem são irreversíveis e sem precedentes”, um exemplo é a seca no Paraná. Neste cenário, Erick Xavier lembrou que o rio Paraná também sofre com as barragens construídas ao longo do seu trecho.
“Estamos em um trecho do rio explorado turisticamente, com parques ambientais, APAs e unidade de conservação. Mas, desde que começaram a construir as barragens na bacia do Paraná, esse trecho que compreende essa biodiversidade protegida vem sofrendo com a influência artificial das hidrelétricas”, argumentou Xavier.
Com uma pesquisa de doutorado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) em Rede de Habitats e as Consequências das Mudanças Climáticas e Solo, o biólogo falou como a redução do leito do rio é afetado pela intervenção das barragens. “Agora com a seca as hidroelétricas precisam segurar água nos reservatórios, para conseguir produzir energia. Desta forma, o rio fica com o leito extremamente baixo. Essa situação afeta as áreas de várzeas e o que resta está sendo drenado para plantar”, explicou o pesquisador.
Ainda segundo o entrevistado, no período de chuva quando o rio e as várzeas deveriam encher, para recuperação da vida aquática e terrestre, as hidrelétricas precisam encher os reservatórios e consequentemente o rio não transborda. Além disso, a água não leva a areia provocando ainda mais surgimentos de assoreamento e na próxima seca a situação do rio será ainda pior, com mais bancos de areia e sem vida, disse Xavier.
“O rio Paraná bonito com águas cristalinas já é consequência de barragem. Essa água limpa é pobre de alimento para peixe. É como colocar água em um copo, essa água fica parada e o sedimento vai descer para o fundo. Por isso que não adianta ficar soltando peixe, não tem alimento no rio. Estamos vivendo uma situação trágica”, explicou.

Na formatação de medidas para mudar o cenário ambiental, Erick não vê outro caminho a não ser a união e principalmente uma atuação comprometida dos governos. “Existe é um problema sistêmico da educação ambiental, que é sempre voltado para as crianças. Isso é uma grande irresponsabilidade, pois o relatório do IPCC aponta que estamos em uma mudança provocada pela ação humana com aumento de 1,5 º C na temperatura média global e mesmo que for feito algo agora melhorar essa situação é irreversível. É preciso economizar água e energia, mas apontar apenas para o cidadão, como responsável por esse problema ambiental é se eximir da culpa”, exclamou.
O pesquisador enfatizou a necessidade de políticas públicas ambientais para o investimento em energias alternativas, de recuperação e conservação florestal e de uma forma diferente de fazer agricultura. “Não podemos ter incentivo para acabar com o meio ambiente, mas o contrário. Precisamos primeiro cumprir a legislação com recuperação de mata ciliar e reserva legal. Depois pensar numa transição agroecologia, pois o modo de produção agrícola realizada hoje vai falir. Um exemplo: se todo agricultor buscar a irrigação como alternativa, não vai ter água em lençol freático que aguente, pois não vai ter chuva para produzir essa água”, finalizou.

As mudanças do clima, que estão afetando todas as regiões do mundo, não têm precedentes – segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Os efeitos são eventos climáticos extremos mais frequentes e mais severos como ondas de calor, chuvas fortes e secas em todas as partes do mundo. As observações das últimas décadas mostram que o clima do Brasil está mudando. “Todas as regiões tiveram aumento nas temperaturas médias. O intervalo entre os eventos extremos está diminuindo e estão se tornando cada vez mais fortes. Antes, quando se falava em seca, pensava-se no semiárido nordestino. Hoje fala-se em seca na Amazônia, no Sudeste e no Sul do Brasil”, afirma o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Lincoln Alves.
