Umuarama

O gigante doente

Rio Paraná agoniza e o futuro da sua biodiversidade preocupa pesquisadores

05/09/2021 07H20

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Pesquisadores caminham em enorme banco de areia formado em meio do Rio Paraná

O rio Paraná é o principal formador da Bacia do Prata e o segundo em extensão na América do Sul, atrás do Amazonas, mas ele vem encolhendo desde 2019 e nos últimos dias atingiu níveis nunca vistos desde 1940. Uma expedição realizada por representantes da Rota dos Pioneiros, a maior trilha aquática do Brasil, registrou cenas alarmantes de seca e morte do “Paranazão”, como o rio é conhecido na região.

Dados do Governo do Paraná, apontam que o Estado há mais de um ano enfrenta uma estiagem sem precedentes nos últimos 50 anos. Chuvas abaixo da média têm reduzido a vazão de rios e poços utilizados para abastecimento humano. A situação afeta também o colossal Rio Paraná. Com forme o biólogo e pesquisador Erick Xavier, que também participou da expedição, além das questões climáticas, o rio e toda sua biodiversidade sofre com o efeito das barragens hidroelétricas e falta de políticas públicas de restauração e conservação ambiental.

A expedição percorreu o trecho entre a praia da Amizade e o Porto Morumbi, região situada no Mato Grosso do Sul e segundo Xavier, mesmo atuado no rio Paraná há mais de doze anos, ele teve dificuldades para se localizar, pois o rio estava irreconhecível. “Em um trecho tive dúvidas do local que estávamos. A quantidade de areia e ilhas que estão se formando é impressionante. Outra situação assustadora são as rochas expostas, com mais de meio metro para fora da água”, lembrou.

Com a redução drástica do nível da água a navegação mercante no rio Paraná ficou impossível. A geração de eletricidade, a pesca, o fornecimento de água para consumo e irrigação também foram prejudicados. Fora do mundo humano, a biodiversidade do Paranazão está comprometida, pois suas várzeas estão secas, atingidas por incêndios e exploração agrícola. A situação do rio gera um impacto de proporções internacionais, afetando o Paraguai e Argentina.

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O biólogo e pesquisador Erick Xavier mostra a imensidão de areia acumulada no Rio Paraná

BARRAGENS E FALTA DE CHUVA

O relatório da ONU, elaborado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC), divulgado no dia 08 de agosto, enfatizou que: “As mudanças climáticas provocadas pelo homem são irreversíveis e sem precedentes”, um exemplo é a seca no Paraná. Neste cenário, Erick Xavier lembrou que o rio Paraná também sofre com as barragens construídas ao longo do seu trecho.

“Estamos em um trecho do rio explorado turisticamente, com parques ambientais, APAs e unidade de conservação. Mas, desde que começaram a construir as barragens na bacia do Paraná, esse trecho que compreende essa biodiversidade protegida vem sofrendo com a influência artificial das hidrelétricas”, argumentou Xavier.

Com uma pesquisa de doutorado pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) em Rede de Habitats e as Consequências das Mudanças Climáticas e Solo, o biólogo falou como a redução do leito do rio é afetado pela intervenção das barragens. “Agora com a seca as hidroelétricas precisam segurar água nos reservatórios, para conseguir produzir energia. Desta forma, o rio fica com o leito extremamente baixo. Essa situação afeta as áreas de várzeas e o que resta está sendo drenado para plantar”, explicou o pesquisador.

Ainda segundo o entrevistado, no período de chuva quando o rio e as várzeas deveriam encher, para recuperação da vida aquática e terrestre, as hidrelétricas precisam encher os reservatórios e consequentemente o rio não transborda. Além disso, a água não leva a areia provocando ainda mais surgimentos de assoreamento e na próxima seca a situação do rio será ainda pior, com mais bancos de areia e sem vida, disse Xavier.

“O rio Paraná bonito com águas cristalinas já é consequência de barragem. Essa água limpa é pobre de alimento para peixe. É como colocar água em um copo, essa água fica parada e o sedimento vai descer para o fundo. Por isso que não adianta ficar soltando peixe, não tem alimento no rio. Estamos vivendo uma situação trágica”, explicou.

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Surgimento de rochas em meio ao Rio Paraná assusta pesquisadores ao percorrer a rota

EDUCAÇÃO FRACA

Na formatação de medidas para mudar o cenário ambiental, Erick não vê outro caminho a não ser a união e principalmente uma atuação comprometida dos governos. “Existe é um problema sistêmico da educação ambiental, que é sempre voltado para as crianças. Isso é uma grande irresponsabilidade, pois o relatório do IPCC aponta que estamos em uma mudança provocada pela ação humana com aumento de 1,5 º C na temperatura média global e mesmo que for feito algo agora melhorar essa situação é irreversível. É preciso economizar água e energia, mas apontar apenas para o cidadão, como responsável por esse problema ambiental é se eximir da culpa”, exclamou.

O pesquisador enfatizou a necessidade de políticas públicas ambientais para o investimento em energias alternativas, de recuperação e conservação florestal e de uma forma diferente de fazer agricultura. “Não podemos ter incentivo para acabar com o meio ambiente, mas o contrário. Precisamos primeiro cumprir a legislação com recuperação de mata ciliar e reserva legal. Depois pensar numa transição agroecologia, pois o modo de produção agrícola realizada hoje vai falir. Um exemplo: se todo agricultor buscar a irrigação como alternativa, não vai ter água em lençol freático que aguente, pois não vai ter chuva para produzir essa água”, finalizou.

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EFEITOS CLIMÁTICOS

As mudanças do clima, que estão afetando todas as regiões do mundo, não têm precedentes – segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Os efeitos são eventos climáticos extremos mais frequentes e mais severos como ondas de calor, chuvas fortes e secas em todas as partes do mundo. As observações das últimas décadas mostram que o clima do Brasil está mudando. “Todas as regiões tiveram aumento nas temperaturas médias. O intervalo entre os eventos extremos está diminuindo e estão se tornando cada vez mais fortes. Antes, quando se falava em seca, pensava-se no semiárido nordestino. Hoje fala-se em seca na Amazônia, no Sudeste e no Sul do Brasil”, afirma o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Lincoln Alves.

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