DIA DO ALFAIATE

Ao entrar na pequena sala da Alfaiataria Brasil, na rua Arapongas, Zona II de Umuarama, é impossível não ser transportado para um tempo em que a moda era feita à mão, com calma e precisão. O som suave da tesoura cortando o tecido, o deslizar da agulha e o cheiro característico dos retalhos dão ao ambiente uma atmosfera de memória viva. Ali, cercado de linhas, moldes e histórias, está Rafael Cândido da Silva, 71 anos, um dos últimos alfaiates em atividade na cidade.
Casado, pai de dois filhos e avô orgulhoso, Rafael é mais do que um profissional: é um guardião de uma arte que marcou gerações. Sua trajetória começa ainda menino, quando, em 1960, chegou a Umuarama com os pais e seis irmãos. A família se instalou na zona rural, em um tempo em que a cidade ainda dava seus primeiros passos.

Da infância humilde ao primeiro emprego
O primeiro ofício de Rafael não foi com agulhas e linhas, mas com picolés. Aos 13 anos, ele percorreu as ruas de terra batida vendendo sorvete. “Essa época nem asfalto tinha. Era tudo terra. Mas o dinheiro ajudava em casa e dava até para ir ao cinema”, recorda com um sorriso nostálgico.
Alguns anos depois, em 1969, quando tinha 16 anos, surgiu o convite que mudaria o rumo de sua vida: ser aprendiz de alfaiate. A vaga era na Bento Alfaiate, uma das casas mais conhecidas da cidade, localizada no centro. O jovem Rafael passou a trabalhar das 8h às 18h, aprendendo cada detalhe da profissão que o acompanharia por toda a vida.
“O salário era simples, mas dava para ajudar a sustentar os irmãos e contribuir na alimentação. Nossa família era grande e todo mundo precisava colaborar”, relembra.
Nasce a Alfaiataria Brasil
Após dez anos de aprendizado e prática, Rafael decidiu que era hora de trilhar seu próprio caminho. Em 1980, junto de um amigo, abriu a Alfaiataria Brasil, na avenida Paraná, próximo à Praça Arthur Thomas. A sociedade durou uma década, até que em 1990 a alfaiataria foi transferida para a rua Ministro Oliveira Salazar, onde permaneceu por 27 anos.
A pandemia trouxe novos desafios, mas também uma nova fase. Rafael optou por mudar novamente de endereço, desta vez para a rua Arapongas, onde segue atendendo os clientes fiéis e conquistando novos, sempre com o mesmo cuidado artesanal de décadas atrás.
Entre linhas, clientes e amizades
Ao longo dos anos, a alfaiataria não foi apenas o lugar onde Rafael construiu sua carreira, mas também sua vida. Foi através dela que se casou, criou os filhos e garantiu a formação da família. Hoje, com mais de cinco décadas de profissão, ele segue firme, acompanhado do amigo Celsino Correia, também de 71 anos, parceiro inseparável desde os anos 1970.
“Eu e o Celsino já trabalhamos juntos há mais de 50 anos. Ele chegou a sair por um tempo para trabalhar em outras cidades, mas voltou e seguimos lado a lado. Isso aqui é mais que trabalho, é amizade”, conta Rafael.

De ternos sob medida a ajustes finos
A alfaiataria mudou muito ao longo dos anos. Se antes era comum confeccionar ternos e camisas inteiramente sob medida, hoje o foco está nos ajustes. “A indústria cresceu, as roupas já vêm prontas e muito bem-feitas. O que sobra para a gente são os consertos: barra de calça, manga de camisa, ajustar um paletó. Mas isso exige cuidado. Tem que ser alfaiate para manter o caimento original”, explica.

Mesmo assim, ainda há clientes que procuram pelo trabalho artesanal de um alfaiate para peças exclusivas. São cerca de 60 atendimentos por mês, prova de que, apesar das mudanças, o ofício mantém sua relevância.
O amor pela profissão
Quando questionado sobre parar, Rafael é firme: “Eu não me vejo sem a alfaiataria. Gosto do que faço. Aqui a gente trabalha, faz amigos, mantém contato com clientes antigos. Enquanto tiver saúde, vou continuar.”
Sua fala revela mais do que amor pelo ofício. Ela traduz a essência de uma profissão que, embora tenha perdido espaço para a indústria e para o consumo rápido, ainda carrega consigo um valor especial: o cuidado humano em cada detalhe.

Um legado em cada ponto
No Dia do Alfaiate, celebrado em 6 de setembro, a história de Rafael ganha um significado ainda maior. Ele representa não apenas a resistência de um ofício em extinção, mas também a memória de uma cidade que já contou com cerca de 20 alfaiatarias ativas e hoje mantém apenas duas.
Entre linhas, tecidos e conversas, Rafael segue costurando não só roupas, mas também memórias. Sua vida é prova de que a verdadeira elegância está no cuidado, no detalhe e na dedicação de quem transforma um simples pedaço de tecido em parte da história de alguém.
