Cotidiano

IPORÃ

“Preciso fumar um cigarro e tomar um café”, disse serial killer antes de confessar assassinatos

13/11/2025 08H02

Jornal Ilustrado - “Preciso fumar um cigarro e tomar um café”, disse serial killer antes de confessar assassinatos

O clima na delegacia de Iporã era de tensão no momento em que o jovem de 23 anos, principal suspeito pela morte brutal de Danilo Roger Bido, disse: “Preciso fumar um cigarro e tomar um café”. Depois disso, confessou não apenas aquele crime, mas outros três assassinatos cometidos na cidade, entre março e setembro. “Foi quando ele começou a falar das vítimas, de forma calma, sem arrependimento algum”, contou o delegado Luã Mota, responsável pelo caso.

O rapaz, que chegou a se autodenominar um “serial killer”, foi preso no dia 5 de novembro, após mais de um mês de investigação da Polícia Civil. As digitais do suspeito foram encontradas no carro de Danilo, morto com 18 golpes de faca em uma estrada rural de Iporã, na madrugada de 31 de agosto.

Perfil psicológico e histórico

De acordo com informações levantadas pela polícia, o rapaz já havia sido diagnosticado com traços de psicopatia e esquizofrenia paranoide. Faz uso contínuo de medicamentos e realiza acompanhamento psiquiátrico tanto em Iporã quanto em Umuarama. Apesar do histórico de distúrbios, não possuía antecedentes criminais.

A família do suspeito ainda não foi formalmente ouvida, mas já relatou às autoridades que ele apresentava comportamento agressivo e causava problemas em casa. Em depoimento, o jovem se manteve frio, tranquilo e sem demonstrar remorso. De acordo com a investigação, ele preferia matar as vítimas enquanto dormiam.

A confissão

Durante o interrogatório, o delegado Luã Mota relatou que o suspeito surpreendeu os investigadores. “Começamos o interrogatório e ele disse: ‘Vou falar mais’, e então começou a relatar, um a um, os homicídios que havia cometido”, afirmou o delegado.

O suspeito contou que as escolhas das vítimas eram, em geral, aleatórias, sem motivação pessoal. Apenas o caso de Danilo Roger teria sido premeditado. Segundo a investigação apontou, os dois trocaram mensagens por alguns dias — Danilo morava e trabalhava em Toledo — e combinaram de se encontrar em Iporã, onde a vítima passaria o fim de semana.

O primeiro suspeito, preso no dia 10 de outubro e posteriormente solto após o fim da prisão temporária, ainda é investigado. O celular dele ainda não foi periciado, e as mensagens que manteve com Danilo foram apagadas. A polícia tenta descobrir se houve algum tipo de contato entre os dois suspeitos.

Os quatro assassinatos

A confissão do jovem detalhou quatro homicídios ocorridos em sequência:

  1. José Antônio Rodrigues Gaia, 61 anos – morto na madrugada de 19 de março, com golpes de faca, no Bosque da Cidade, na Avenida Duque de Caxias. Era morador de rua.
  2. Luiz Delfino, 54 anos – encontrado sem vida em casa, no distrito de Mutirão 4, em 17 de abril. Inicialmente, o caso não foi tratado como homicídio, mas agora é investigado como o segundo assassinato.
  3. Danilo Roger Bido – 31 de agosto. Morto com 18 facadas, principalmente na nuca, em uma estrada rural. O carro da vítima foi encontrado a 100 metros do corpo.
  4. Gilberto de Lucca, 45 anos – morto quatro dias depois, em 4 de setembro, com duas perfurações no pescoço, em frente a um bar no centro da cidade.

A maioria das vítimas foi atacada com arma branca, em áreas próximas à residência do suspeito — o que reforça a ligação entre os crimes.

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O caso Luiz Delfino e a exumação

O assassinato de Luiz Delfino, de 54 anos, trouxe novos desdobramentos. O corpo foi encontrado dentro da própria casa, em abril, e inicialmente a morte foi tratada como natural. Contudo, fotos obtidas pela família mostram um corte profundo no pescoço e marcas de faca no braço.

Segundo os advogados da família, João Paulo Silva e Fernanda Mastrangelo, do escritório MS Advogados Associados, o corpo estava em estado de decomposição, e a família não pôde realizar um velório digno.

A Polícia Militar isolou a área, mas os familiares não puderam se aproximar. “As imagens mostram claramente sinais de violência, mas o atestado de óbito trouxe como causa ‘indeterminada’”, relatou o advogado. O médico que inicialmente avaliou o corpo se recusou a assinar o documento, e uma terceira profissional acabou atestando a morte como indeterminada.

Agora, a Polícia Civil pediu a exumação do corpo de Luiz Delfino — o requerimento já foi feito, mas ainda não há data definida. A investigação foi reaberta após a confissão do suspeito, que relatou ter matado o homem enquanto ele dormia, um dia após tentar o mesmo crime e não conseguir, pois a vítima estava acordada.

Segundo uma das filhas, Bruna Marques, ele teria ficado irritado por o assassinato não ter sido reconhecido como homicídio, ao tratarem o caso como natural.

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Outras vítimas e linhas de investigação

A irmã de Gilberto de Lucca, Elza, contou que o irmão era uma pessoa tranquila e querida na comunidade. “Ele saía pra beber, mas era sossegado, não arrumava confusão”, relatou emocionada.

No caso de Gilberto, a Polícia Civil mantém outra linha de investigação e trabalha com mais de um suspeito, já que há indícios que podem vincular outra pessoa ao crime.

Cada um dos quatro casos foi transformado em inquérito independente, conduzido pela Polícia Civil de Iporã.

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Um retrato de frieza e crueldade

Durante as horas de interrogatório, o comportamento do suspeito chamou atenção dos investigadores. Ele não demonstrou medo, arrependimento ou emoção ao falar das mortes. Em determinado momento, fez um pedido curioso: “Se forem divulgar alguma foto minha, quero que usem uma em que eu esteja tomando vinho.”

O delegado Luã Mota descreveu o depoimento como “assustador e frio”. “Nunca vi nada parecido na minha vida”.

A polícia agora tenta cruzar informações e verificar se há outras vítimas possivelmente ligadas ao suspeito. Enquanto isso, a cidade de Iporã, que nunca havia registrado crimes em série dessa natureza, tenta lidar com o medo e a perplexidade deixados pela confissão do homem que, antes de revelar tudo, apenas pediu um cigarro e um café.