DÍVIDA MORTAL

A Polícia Civil, por meio da 7ª Subdivisão Policial de Umuarama, divulgou nesta quarta-feira (10) novos e amplos esclarecimentos sobre o caso que chocou a região: o desaparecimento e assassinato de quatro homens — os cobradores Diego Henrique Affonso, Robishley Hirnani de Oliveira e Rafael Juliano Marascalchi, além do contratante Alencar Gonçalves de Souza Giron — mortos no dia 5 de agosto e encontrados mais de 40 dias depois, enterrados em uma propriedade rural no distrito de Vila Rica em Icaraíma.
Os novos detalhes expõem, pela primeira vez, a reconstrução completa da dinâmica do crime, indicando execução imediata em uma emboscada, pelo menos cinco atiradores e tentativa de ocultação de provas. Informações sobre possível envolvimento de agentes públicos também passaram a ser oficialmente investigadas.
A Polícia Civil reforça que os principais suspeitos permanecem sendo Antônio e Paulo Buscariollo, pai e filho, citados pelas vítimas antes da morte como os devedores alvo da cobrança.

Cobrança de dívida, temor de retaliação e acerto prévio
As investigações revelam que Alencar contratou o serviço de cobrança com Diego Henrique Affonso. Diversos diálogos recuperados demonstram que os dois tratavam da dívida com os irmãos Buscariollo.
Alencar, em mais de uma mensagem, demonstrava grande receio de cobrar a dívida devido às atividades ilícitas atribuídas aos Buscariollo. Ele relata temer represálias — temor sempre minimizado por Diego, que garantia que não haveria riscos. “Faz [sic] 25 anos que trabalho nesse ramo, nunca aconteceu vingança na nossa cobrança, já estamos acostumados. Eles sabem com quem estão lidando, a pessoa não é boba, só se for muito leigo mesmo”, afirma Diego em um dos áudios.
O serviço de cobrança custaria 50% do valor recuperado. O montante exato da dívida, porém, permanece controverso. Alencar afirma que devia receber R$ 129 mil. Os Buscariollos emitiram notas promissórias que somavam R$ 255 mil, valor que o próprio contratante disse não entender. Um dos cobradores relatou a terceiros que a cobrança seria de R$ 1 milhão, ponto ainda em apuração.
Primeiro contato em Vila Rica

No dia 4 de agosto, já em Icaraíma, Alencar e os três cobradores foram até o distrito de Vila Rica, onde tiveram uma primeira conversa com os Buscariollos. Houve promessa de pagamento por meio da cessão de uma casa — promessa que não se concretizou.
Na manhã seguinte, dia 5, por volta das 7h, Diego enviou áudios à esposa relatando o clima tenso da visita anterior: “O cara estava até com o revólver no bolso. O velho anda armado aqui. Mas hoje vamos voltar. Tem que fazer dar certo alguma coisa”.
Ainda naquela manhã, eles retornaram à residência dos Buscariollos, mas novamente não localizaram os devedores. Às 11h47, Diego enviou novos áudios à esposa afirmando que “os caras estavam se escondendo”.
Últimas imagens e saída para a morte
Às 12h04, câmeras de segurança registraram a Fiat Toro em que estavam as vítimas deixando Icaraíma em direção a Vila Rica. Essa é a última imagem dos quatro vivos e do veículo circulando.
Nenhuma gravação foi divulgada para preservar os locais das câmeras.
Segundo a Polícia Civil, as vítimas foram executadas por volta das 12h30, assim que chegaram à propriedade rural objeto da dívida. Todos os elementos investigativos descartam as versões iniciais de sequestro, cativeiro ou tortura. A cena reconstruída aponta para uma emboscada com ao menos cinco armas de fogo de calibres distintos; três pontos de disparo diferentes; veículo atingido pela frente, traseira e lado esquerdo, e possível movimentação dos atiradores durante os disparos.
Os tiros foram disparados quando os quatro ainda estavam na Fiat Toro, muitos deles atingindo regiões vitais como cabeça e tórax, inviabilizando qualquer chance de sobrevivência. A grande quantidade de sangue encontrada nos bancos reforça a conclusão de que todos morreram dentro do veículo.
A investigação aponta atiradores posicionados estrategicamente em ao menos três pontos abriram fogo com cinco tipos de armas — entre elas fuzis calibre 5.56 e .223, e pistolas 9mm, .40 e .45.
Ocultação imediata dos corpos e veículo

Após a execução, os criminosos levaram os corpos na própria Toro até a cova onde foram enterrados
– as primeiras partes dos corpos estavam a mais ou menos cinquenta centímetros de profundidade,
conforme o delegado chefe da 7ª SDP, Gabriel Menezes, informou. Pedaços do veículo encontrados junto aos corpos mostram que tudo foi feito às pressas.
Depois de enterrar as vítimas, os executores seguiram com o veículo até um bunker subterrâneo na mesma área e o ocultaram. Câmeras registraram o automóvel em direção ao local do enterro logo após o horário estimado da morte.
Denúncias anônimas relataram intensa sequência de tiros na propriedade rural no horário compatível com a execução — relatos que se alinham integralmente às provas técnicas.

Os corpos foram encontrados na noite de 18 de setembro, após 44 dias de buscas. As vítimas foram encontradas enterradas a cerca de 650 metros do local onde a picape usada por elas havia sido localizada no dia 12 de setembro. Os corpos estavam cobertos por plantas e entulhos, em uma área de difícil acesso.
Laudos confirmam execução e descartam tortura
Os corpos apresentavam estado de saponificação, preservação compatível com o tempo em que ficaram enterrados, e que devido ao local – solo argiloso – preservou os corpos. Não havia qualquer indício de tortura.
Robishley foi atingido por oito disparos; Diego por nove; Rafael recebeu seis tiros e Alencar um tiro na cabeça.
Os laudos confirmam que todos foram mortos por disparos de arma de fogo a curta distância.
Possível envolvimento de policiais
Na terça-feira (09), foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra dois agentes da Polícia Civil lotados em Icaraíma. Segundo a investigação, há indícios de que os policiais mantiveram comunicação com investigados após o crime, possivelmente fornecendo informações que poderiam facilitar fuga, auxiliar na destruição de provas ou interferir na apuração.
A Corregedoria assumiu a investigação e determinou a remoção imediata dos agentes para outras unidades. Até o momento, não há indícios de participação deles no assassinato, apenas possível favorecimento posterior.
A Polícia Civil reafirma que Antônio e Paulo Buscariollo continuam sendo os principais suspeitos da autoria dos assassinatos. Informações sobre autoria e participação ainda seguem sob sigilo e só serão divulgadas após a conclusão da investigação.
O caso segue sendo tratado com sigilo máximo para evitar prejuízos à etapa final de apuração.
