ARTIGO

Tomo chimarrão todo dia. Ele é instituição lá do sul. Reúne a família, faz amigos e aproxima as pessoas. Na memória, vejo papai atrás do fogão à lenha, passando a cuia, de mão em mão, enquanto mamãe preparava o café com pão de milho e chimia. Na prosa, organizava o serviço e misturava histórias deliciosas. Coisa boa, esse rito do chimarrão que fazia a gente falar em família, dialogar e aprender. Nem sei quem escreveu esta bela lição que o chimarrão nos dá e que nunca esqueci: “Se os homens da guerra mateassem ao pé do fogo, e deixassem o ódio prá trás, antes que a erva lavasse, o mundo estaria em paz”.
Comecei com os homens da guerra. Há poucos dias, vimos a polêmica que irritou o governo do Paraguai porque o nosso Presidente, querendo condenar as guerras e enaltecer a paz, lembrou que a guerra do Paraguai começou com a invasão ao Brasil, pelo comandante da nação vizinha, Francisco Solano López. Nisso, teria ferido a suscetibilidade dos vizinhos. Não sei o que falam os livros de história deles, mas os daqui dizem que tudo começou com ele sim, invadindo o Mato Grosso e aprisionando um barco brasileiro. Num deles está:
“(…)Sem prévia declaração de guerra, dando início à campanha, apresou o barco “Marquês de Olinda” que levava a bordo o presidente da província e elevadas quantias remetidas pelo Tesouro Nacional para serviços públicos em Mato Grosso. (…) não satisfeito com o apresamento do navio, imediatamente anexado à frota do Ditador, o Paraguai fez invadir o Mato Grosso, enquanto outra coluna, sob o comando de Estigarríbia, seguia para o sul a fim de juntar-se às tropas de Aguirre. (in História da América – Vicente Tapajós, 7ª ed. Forense, págs.359-360). Vou ao parágrafo.
De olho na saída para o mar, Solano López quis socorrer o uruguaio Aguirre, visando chegar ao Prata. Para isso, as tropas paraguaias teriam que passar por Corrientes, coisa que o presidente argentino Bartolomeu Mitre não permitiu. Então, “El Supremo” Solano López invadiu a província argentina. Continua o livro citado: “(…) Em conseqüência, a Argentina firmou aliança com os inimigos de López, isto é, com o Brasil e os uruguaios de Venâncio Flores” ( pág. 360).
Estava aí a guerra que enfraqueceu as nações da tríplice aliança, destroçou o Paraguai, deixou miséria e matou milhares de combatentes. Batalhas sangrentas se sucederam, como Riachuelo, Tuiuti, Curupaiti e outras, até Cerro Corá que viu a morte do caudilho invasor. É história que adverte: De que valem guerras, senão mortes, destruição, dor e lágrimas? Se o mundo de hoje está cheio caudilhos e déspotas que invadem países, jogam bombas, atacam soberanias e fazem guerras, valeu falar da paz, enaltecê-la e previni-la. Isso é fazer a história que virá para registrar quem são os homens da guerra.
(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).