ARTIGO

Sou um confesso aficcionado pela história. Nas suas páginas, ainda que amareladas pelo tempo, encontramos as raízes do pensamento e pavorosas decisões da humanidade, no tabuleiro da co-existência entre pessoas, povos e nações. Se vivemos dias de angústia nesta quadra da história, cheia de ódio, selvageria política e ataques às soberanias, o passado está repleto de episódios paralelos nada civilizados que se repetem na ânsia incontida de dominação.
Parecia que a segunda guerra mundial, com a sua crueldade em sangue, mortes, dor e lágrimas, havia suscitado um caminho para a civilidade. Ele chegou como um pacto para a convivência humana. Criou-se a ONU com regras para todos, organizando o comércio no multilateralismo e ditando normas de direito internacional, para garantir a paz e o respeito à soberania das nações. Tudo muito bom e justo porque a convivência se perdera com as agressões do fascismo de Mussolini e do nazismo de Hitler que queriam dominar o mundo. O tempo passou e o que se vê agora, já não é o caminho da paz e do respeito às nações, garantido pela ONU. Quem mais se armou e se adonou de poder bélico, faz ouvidos moucos à civilidade e troça da soberania. Invade países, faz guerras estúpidas e ainda pousa de juiz e dono do mundo.
Quem olha para trás, vê que a busca de poder e o instinto de dominação do outro cadencia uma história minada de tiranos e ditadores. Lembrei-me de Cícero, denunciando Catilina que, em 63 a.C., organizava uma conspiração contra a República de Roma. Ali, nas suas Catilinárias, defendia a legalidade institucional, equilibrando o poder na autoridade do Senado e dos Cônsules, coisa que garantiria a normalidade na República e a segurança dos cidadãos.
Cícero era um tribuno sem rival na eloqüência. Rico na imaginação, veemente na vervi, cheio de graça, sedução e habilidade dialética, segundo o Lello. Era visto e tido como guardião e Pai da República. Combativo e vigilante que era, detestava arroubos autoritários e assim, fez inimigos. Com a morte de Júlio César, apunhalado por Brutus e seus comparsas, dentro do Senado, Cícero queria Otávio, sobrinho de César para sucedê-lo e se opôs a Marco Antônio que liderou o segundo triunvirato, junto com Otávio e Lépido. Aí, pasmem! O medo de Cícero e de sua postura crítica contra a tirania, fez o triunvirato traí-lo e proscrevê-lo como inimigo da República, condenando-o à morte. Ao tentar fugir dessa ignomínia, foi preso e executado em 43 a.C.
Diante do mundo de hoje, contaminado por extremistas avessos a leis, regras civilizadas de convivência e Democracia, se Cícero vivesse aqui, bradaria de novo: “Oh tempora! Oh mores!” Oh tempos! Oh costumes!
(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).