Luís Irajá Nogueira

18/04/2021

O SER HUMANO ESTÁ SENDO QUALIFICADO COMO “ESSENCIAL” E “NÃO-ESSENCIAL”: SERÁ QUE PERDEMOS A CAPACIDADE DE NOS INDIGNAR?

18/04/2021 06H32

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Frantisek Kafka (1883 – 1924), foi escritor, romancista, contista e advogado. Conhecido como Franz Kafka, nasceu em Praga e foi educado dentro de uma família de classe média judaico-alemã. Foi considerado um dos escritores mais influentes do século XX. Participou dos movimentos literários intitulados modernismo e existencialismo. No entanto, foi o precursor do realismo mágico. Os trabalhos de maior destaque (O Processo, O Castelo e O Desaparecido) foram publicados postumamente. É dele a frase: “Depois de ter dado abrigo ao mal, ele não mais pedirá que você acredite nele”.

A história se repete. Não é a primeira vez que as pessoas são classificadas como “essenciais” e “não essenciais”. Esse filme já foi visto por muitos de nós. Todo trabalho que visa angariar o pão de cada dia é essencial. Até quando vamos ficar escondidos feito animal na toca? É hora de se indignar com o comportamento de certas autoridades do nosso país. Lembre-se: O poder é do povo. Por medo, estamos permitindo políticos decidirem quem é essencial e quem não é. Cuidado! Seu trabalho é essencial. Você é essencial. Não se deixe seduzir pelo discurso fácil. Nossos irmãos da Venezuela e da Argentina estão pagando alto preço pelo descaso com a política. Quando acordaram já era tarde.

No Brasil ainda há tempo para defender nossa dignidade e liberdade. No entanto, estamos perdendo nossas representatividades. A OAB – Ordem dos Advogados do Brasil não representa mais os advogados. A CNBB – Confederação Nacional dos Bispos do Brasil não representa mais os católicos. A ONU – Organização das Nações Unidas não representa mais a paz mundial. O STF – Supremo Tribunal Federal não representa mais a justiça. O Legislativo não representa mais o povo. A grande mídia não tem mais o compromisso com a verdade dos fatos. Todas estas instituições se tornaram militância. Estamos literalmente nas mãos dos piratas e dos corsários.

Stéphane Hessel defende a ideia de que a indignação é o fermento do espírito de resistência. Diz Ele no final de sua vida à jovem geração e aos demais seguimentos da sociedade: “Peguem o bastão, indignem-se! Os responsáveis políticos, econômicos, intelectuais e o conjunto da sociedade não devem desistir, nem se deixar impressionar pela atual ditadura internacional dos mercados financeiro que ameaçam a paz e a democracia. Espero que cada um de vocês encontre seu motivo de indignação. É precioso.”

A falta de indignação da população brasileira frente aos acontecimentos do país é digna de uma certa alienação mental, do derrotismo covarde ou de uma lacuna histórica que nos impede de distinguir o certo do errado. A mídia tradicional aliada à politicagem, acusam o Presidente Bolsonaro de fascista, de nazista, de estar tramando um golpe. Por outro lado aceitamos a decisão da Suprema Corte em inocentar o Lula – frise-se que a maioria dos Ministros do STF foram nomeados pelo PT -, e transformá-lo em um mártir. O Brasil se transformou em cúmplice pelas mãos do STF nesse crime de peculato. Em qualquer outro país o PT seria extinto e seus membros proibidos de disputar as eleições. Indigne-se, pois a justiça não é mais cega no nosso país. Ela tem lado, é parcial.

Que país é esse? Estamos deixando um péssimo legado aos nossos filhos e netos concordando com a pseudo inocência de criminosos confessos. Assistindo impávidos a acordos políticos espúrios entre, outrora adversários, e, aceitando que estes mesmos políticos afirmem que os fins são justificados pelos meios. Feito múmia concordamos com a prisão de jornalistas e deputado acusados por crimes de opinião. Indigne-se, pois vivemos um período perigoso diante de um pseudo pacto para um bem maior do povo. Sabemos, mas não queremos admitir que o resultado desse pacto é a perda da liberdade, da dignidade, milhões de mortos e incontáveis famintos. Basta olhar para a Venezuela. Para Cuba, que em sessenta anos de comunismo espalha miséria.

Franz Kafka nos ensina: “Nenhum de nós tem que seguir a direção do vento, por isso existem as velas nos barcos. É a forma como nós posicionamos a vela que faz com que o mesmo vento nos leve a lugares diferentes. Por isso o Homem criou a vela, para que os desbravadores possam seguir em direção contraria do vento”. Será que já estamos totalmente adestrados e escravizados a ponto de perdermos nosso poder de indignar-se e de lutar pela nossa liberdade e defesa da nossa democracia? Lembre-se: O poder é do povo. Acorda Brasil antes que seja tarde!

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Advogado no Paraná – Palestrante

Professor do Curso de Direito da UNIPAR

iraja@prof.unipar.br