ÚLTIMOS ÁUDIOS

Os áudios divulgados pela Polícia Civil através da 7ª Subdivisão de Umuarama revelam, em detalhes, as conversas entre Diego Henrique Afonso — um dos cobradores mortos — e Alencar Gonçalves de Souza Giron, o contratante do serviço de cobrança que culminou na execução de quatro homens em Icaraíma, em agosto de 2025. O conteúdo traz uma mistura de confiança, experiência no ramo, tentativas de tranquilização e, ao mesmo tempo, sinais claros de risco que, mais tarde, se confirmariam.
As gravações foram feitas no dia 4 de agosto, horas antes de Diego, Robishley Hirnani de Oliveira e Rafael Juliano Marascalchi chegarem ao município. Ao longo do diálogo, Diego explica o funcionamento do serviço, reforça que a equipe teria controle da situação e tenta acalmar Alencar, que demonstrava receio de uma possível retaliação por parte da família Buscariollo — devedores da quantia que seria cobrada.
A confiança dos cobradores contrasta diretamente com o desfecho que o Brasil acompanhou: os quatro homens desapareceram após seguirem para o distrito de Vila Rica no dia 5 de agosto, e tiveram seus corpos encontrados mais de 40 dias depois.
A seguir, a matéria destrincha o conteúdo integral dos áudios e relembra o caso. Os áudios foram transcritos da forma falada, contendo erros gramaticais.
A promessa de segurança
No primeiro áudio enviado a Alencar, Diego tenta tranquilizar o contratante, reforçando que a equipe não era amadora e que ninguém ousaria reagir a eles:
ÁUDIO 1 – Diego para Alencar
“A gente não é aqueles cara que chega lá, Zezão pra receber e… aqui não leva desvantagem não, aqui é grande. Tem que falar pra ele que aqui é grande e aqui recebe e ninguém vai por a cara com ele em nada. Pra ele ficar sossegado, tranquilo”.
Diego insistia que os cobradores tinham experiência suficiente para conter qualquer situação e que não havia histórico de represálias no grupo.
No segundo áudio, ele segue no mesmo tom, reforçando sua vivência e a dos colegas no ramo de cobranças de risco:
ÁUDIO 2 – Diego para Alencar
“Nunca aconteceu, tá? Tem 25 anos que trabalho nesse ramo aí, tá? Eu sou mais novato, mas tem os mais antigos. Nunca aconteceu vingança na nossa cobrança, tá? Não acontece, a gente tá acostumado a cobrança… Belém, Mato Grosso. Não acontece porque eles sabem com quem estão lidando… A pessoa não é boba, só se for muito, muito leiga mesmo”.
A fala, hoje, ganha dimensão trágica: um dia depois, os quatro seriam assassinados.
Apesar das tentativas de tranquilização, Alencar revela seu receio ao descobrir que os Buscariollo estariam envolvidos com atividades ilícitas:
ÁUDIO 3 – Alencar para Diego
“É esse ponto aí que eu tava meio receoso de te falar, Henrique. Eles mexe com trem errado aqui. Fui saber notícia dele depois que fui entrar em contato aqui e mexer com a compra do sítio aqui, que eu fui saber quem era o cara”.
É o primeiro sinal explícito de alerta nas conversas. Mesmo assim, Diego interpreta a informação como um elemento que, segundo ele, facilitaria a cobrança.
A resposta de Diego demonstra confiança, mas também revela que o grupo estava ciente da periculosidade atribuída aos devedores:
ÁUDIO 4 – Diego para Alencar
“Então, esse é o melhor pra nós mexer, entendeu? Até mais fácil, o diálogo já é diferente, o cara já vai saber quem que é entendeu? Só dele olhar nós ele já sabe. Esse é melhor, entendeu”.
A autoconfiança dos cobradores, demonstrada repetidamente nos áudios, contrasta com os riscos que se tornariam fatais no dia seguinte.
Diego também explica a forma de cobrança, o percentual retido e as possíveis formas de negociação com os devedores:
ÁUDIO 5 – Diego para Alencar
“Eu não sei se te expliquei aí, que a gente cobra 50%. Não sei se eu mandei nos áudios aí pra cima, tem muita mensagem aqui que eu acabo esquecendo. A gente cobra 50% do valor da dívida. Então vamos supor que a gente chegou aí para receber tá, ai a gente vê se ele quer fazer um acordo, se ele quer pagar em duas, três vezes. Aí isso daí a gente combina com ele, se ele quer passar algum carro, alguma coisa. Isso a gente combina com ele, de uma forma ou de outra ele tem que pagar. Entendeu? Aí a gente cobra 50% desse valor”.
Em outro momento, Diego volta a tentar tranquilizar o contratante. O tom permanece seguro e confiante:
ÁUDIO 6 – Diego para Alencar
“O Alencar, eu to falando com o Márcio aqui, deixa eu te falar uma coisa. Nossas cobranças cara, não tem justiça da pessoa querer ir atrás de você fazer isso, aquilo tá? Nós somos muito forte, ninguém põe a cara com nós. Você fica protegido por nós. Você fica tranquilo que o cara vai saber com quem que ele tá lidando, porque nóis já passa a letra pro cara cê tá entendendo? Você não tá lidando com cobrador Zezão não, entendeu? Então isso daí você pode ficar tranquilo. Se você tiver com medo do cara fazer alguma coisa com você, tira isso da sua cabeça”.
Essa garantia, no entanto, cai por terra com o desfecho violento do caso.
As conversas ocorreram no dia 04 de agosto de 2025, antes da chegada do grupo ao município. Já em Icaraíma, no período da tarde, Diego, os demais cobradores e Alencar foram até Vila Rica, onde realizaram o primeiro contato com Antônio e Paulo Buscariollo. Houve a promessa de pagamento por meio da cessão de uma casa na área urbana, mas o acordo não se concretizou.
Na manhã do dia 05/08, por volta de 7h, Diego envia novos áudios para sua esposa, relatando que um dos devedores estava armado e que a situação estava tensa, mas que continuariam insistindo no recebimento.
ÁUDIO 7 – Diego para a esposa
“O cara tá fazendo umas propostas, querendo passar uma casa, ou dá o sítio e pagar a diferença. Só que ele não quer diferença, ele quer ver a casa, talvez ele compensa dar a diferença da casa, esperar uns dias e dar a diferença da casa. Ai tem que ver como vai fazer nossa parte. O cara tava até com revólver no bolso, o velho anda armado aqui. Nóis foi esperto que se ele colocasse a mão no bolso, nóis já ia dar uma voadora nele. Hoje nóis vai voltar de novo pra vê se vai dar certo alguma coisa né. Hoje tá um pega aqui do carai. Correria, o povo se escondeu e vai, o bicho tá pegando aqui hoje. Vamos fazer esse trem dar certo aqui, mas nóis ta num pega meio bravo. O cara trafica cigarro aqui, passa do Paraguai. O cara é sem vergonha, malandro, nóis ta meio esperto por causa de tiro, mas vai dar certo sim, se Deus quiser. Vamo vê se ele passa um pedaço de terra pro rapaz.”
Essas mensagens, enviadas poucas horas antes do desaparecimento, são hoje vistas como o último relato em vida de Diego sobre a tensão enfrentada pelo grupo.
De acordo com a Polícia Civil, após os áudios da manhã do dia 05/08, Alencar e os cobradores retornaram à casa dos Buscariollo em Vila Rica. Próximo ao meio-dia, já de volta a Icaraíma, Diego envia novos áudios à esposa de Diego informando que os devedores estavam se escondendo, mas reiterando que “eles iam fazer dar certo”.
Às 12h04, os quatro homens deixaram novamente Icaraíma em direção a Vila Rica, a bordo da Fiat Toro que seria vista pela última vez por câmeras de segurança. Depois disso, há apenas silêncio.
A confiança registrada nas falas, contrastada com o desfecho fatal, confere aos áudios um peso dramático — são, hoje, a última janela para compreender o que acontecia nos bastidores das horas que antecederam a morte do grupo.