Dr. Eliseu Auth

Eliseu Auth

O pai moderno e seu Imposto de Renda

15/06/2020 20H34

Li no jornal da FENACON e resumo o texto. Vale repeti-lo. “O pai moderno passa a vida correndo como louco, em busca do futuro e esquece o presente. Com orgulho, a cada ano, declara seu imposto de renda. Cada bem acrescido foi produto de muito trabalho. Lotes, casas, apartamentos, sítios, automóvel do ano, custou dias, semanas e meses de lutas. Ele está construindo o futuro da família… Se partir, de repente, cumpriu a missão e não vai deixá-la desamparada. Para aumentar os bens, ele não se contenta com um emprego só. Vende parte das férias e leva serviço para casa. É um tal de viajar, almoçar fora, fazer reuniões, cumprir a agenda como executivo dinâmico.

Esse homem esquece que a verdadeira declaração de bens, o valor que conta, está em outra página do formulário do imposto de renda. Está nas linhas modestas onde se lê: “Relação dos dependentes”, pessoas a quem deveria dedicar melhor o seu tempo. Os filhos, novos demais, não estão interessados em propriedades e no aumento da renda. Eles só querem um pai para conviver, dialogar e brincar. Os anos passam, os meninos crescem, e o pai nem percebe. Entregou-se de tal forma à construção do futuro, que não participou de suas pequenas realizações do presente. Não os levou ao colégio, nunca foi a uma festa infantil, não teve tempo de assistir à coroação de sua filha como Rainha da Primavera. Há filhos órfãos de pais vivos. O pai para um lado, a mãe para outro. Família desintegrada, sem amor, sem diálogo e sem convivência…

Depois de uma dramática experiência familiar, diz o pai que não há tempo melhor empregado que aquele dedicado aos filhos. Agora estou aqui com o resultado de tanto esforço: construí o futuro e não sei o que fazer com ele, depois da perda de Luiz Otávio e Priscila. De que vale tudo o que juntei, se meus filhos não estão mais com a gente? Se o resultado de 30 anos de trabalho fosse consumido agora e virasse cinzas, isso não teria importância. A escala de valores mudou e o dinheiro passou a ser o mínimo.

Se o dinheiro não foi capaz de comprar a cura de meu filho amado que se drogou e morreu, e não foi capaz de evitar a fuga de minha filha que saiu de casa, se prostituiu, e dela não tenho mais notícias, para que serve? Eu trocaria, – explodindo de felicidade -, todas as linhas da declaração de bens, por duas únicas que tive que retirar da relação de dependentes: os nomes de Luiz Otávio e Priscila. Meu filho morreu aos 14 anos e minha filha fugiu um mês antes de completar 15 anos.” Concluo eu que temos que aprender as lições do pai moderno e seu Imposto de Renda.

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).