POLÊMICA

O Umuarama Ilustrado ouviu nesta semana dois representantes de centros de formação de condutores da cidade para entender como as autoescolas estão reagindo à resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que poderá alterar o modelo atual de formação de novos motoristas no Brasil. Embora o texto ainda não tenha sido publicado no Diário Oficial — condição necessária para que a medida tenha validade — o assunto ganhou grande repercussão nacional e provocou dúvidas entre alunos e futuros condutores.
“Não é lei, não está valendo e pode nem entrar em vigor”, diz diretor da Autoescola Umuarama

Para Aurélio Polli Cassiano, diretor geral da Autoescola Umuarama, grande parte do alvoroço foi gerado pela divulgação precipitada nas redes sociais e na mídia. Ele reforça que o documento aprovado é uma resolução interna, e não uma lei, e que só passa a valer após publicação no Diário Oficial, o que ainda não ocorreu.
Além disso, segundo ele, mesmo em caso de publicação, não haveria possibilidade de implantação imediata. “Os Detrans de todos os estados foram pegos de surpresa. Não há equipamentos, sistemas ou estrutura para um novo modelo de ensino. Qualquer mudança levaria de seis a nove meses para ser implementada”, afirma.
Aurélio também destaca que já existe uma movimentação no Congresso Nacional para suspender ou modificar o texto, o que aumenta as chances de o modelo nunca entrar em vigor. Ele ainda explica que a resolução, se aplicada como está, pode gerar aumento nos custos para o aluno, e não redução, como tem sido sugerido.
“Se o aluno usar carro próprio para treinar e bater, o seguro não cobre porque ele não é habilitado. Já um instrutor autônomo cobrará entre R$ 200 e R$ 300 a aula. E, para o exame, o Detran não aceitará carros sem duplo comando. No fim, a conta não fecha. A carteira pode até ficar mais cara”, avalia.
O diretor também alerta para o risco de decisões apressadas: “As pessoas precisam entender que nada mudou. É preciso fugir das manchetes superficiais. Não está em vigor, e na minha visão dificilmente estará”, conclui.
Autoescola Fama: “Mudança não é imediata e terá impacto estrutural enorme”

A diretora de ensino da Autoescola Fama, Carla Viviane de Moraes, reforça a preocupação com a forma como o assunto tem sido divulgado. “A mídia está tratando como se já estivesse valendo e como se o aluno já pudesse ignorar a autoescola. Isso não é verdade. Nada mudou. E, se mudar, levará tempo”, afirma.
Carla explica que o sistema atual exige 20 aulas práticas obrigatórias, além de registro de biometria em cada aula e integração completa com o sistema do Detran.
Sob o novo modelo, seriam permitidas apenas duas aulas práticas, algo que ela considera inviável: “Com duas aulas, é impossível formar um motorista. É um retrocesso.”
Ela detalha que o próprio Detran teria que reestruturar completamente o sistema, o que impede qualquer mudança imediata. Outro ponto de destaque é a figura do instrutor autônomo, prevista na resolução. Embora a proposta aparente simplicidade, Carla explica que o processo é bem mais complexo:
“É um investimento alto. Não sabemos se terá grande procura. Tudo ainda é muito confuso”, comenta.
Ela também ressalta que, mesmo se publicada, a resolução deixará uma série de lacunas jurídicas e operacionais, pois ninguém sabe exatamente como o Detran fará o controle dos testes práticos, especialmente quanto à segurança do examinador. “O Detran não vai autorizar um veículo comum para o teste. O carro precisa de pedais auxiliares, adesivos e sistemas de segurança. Mudar essa estrutura não acontece de um dia para o outro”, explica.
Incerteza nacional freia procura por CNH
Os dois profissionais apontam que o principal impacto, até o momento, tem sido a paralisação e a insegurança. Muitas pessoas estão adiando o início da CNH por acreditarem que “a autoescola acabou”, o que não é verdade.
“Ontem mesmo um rapaz me perguntou se já podia começar sem autoescola. As pessoas estão perdendo tempo e oportunidade por causa de informações equivocadas”, relata Carla.
Ambos concluem reforçando que o processo atual permanece integralmente válido e que, até que haja publicação oficial — e posterior reestruturação dos Detrans — tudo seguirá como está.