UMUARAMA

A médica que atendeu o menino de 12 anos que morreu após complicações decorrentes de apendicite em Umuarama se pronunciou ao Ilustrado sobre o caso. Ela pediu para não ter o nome divulgado e afirmou estar sendo alvo de julgamentos e ataques nas redes sociais.
Segundo a profissional, por questões de sigilo médico, não pode divulgar detalhes específicos do prontuário, mas decidiu esclarecer pontos que, segundo ela, não violam a confidencialidade do paciente.
Primeiro atendimento
De acordo com a médica, no primeiro atendimento o menino não apresentava sinais clínicos característicos de abdome agudo — como febre, vômitos persistentes, dor abdominal intensa com sinais de peritonite.
Ela afirma que registrou em prontuário que o paciente apresentava distensão abdominal e presença de gases, mas nega ter dito que o quadro se resumia apenas a isso. “Tenho o prontuário e a prescrição médica que comprovam a conduta adotada”, declarou.
Retorno e solicitação de exames
No dia seguinte, conforme relatado, o paciente retornou à unidade com piora do quadro. Foram solicitados exames de sangue, urina e raio-X. Segundo a médica, apenas o exame de urina apresentou alteração, sugerindo infecção urinária.
Ela informou que iniciou medicação e questionou a mãe sobre a possibilidade de realizar uma ultrassonografia particular, tendo recebido concordância para emitir a solicitação. Como o horário já se aproximava das 18h, a expectativa era de que o exame fosse feito e apresentado no dia seguinte.
Suspeita de apendicite e transferência
No dia 18, o menino retornou com uma carta médica indicando suspeita de apendicite e recomendação de internação. A médica explicou que, para solicitar vaga hospitalar pelo sistema público, é necessário fundamentar o pedido com base em critérios técnicos e exames complementares.
Ela afirmou que, naquele momento, o paciente não pontuava na Escala de Alvarado — utilizada como ferramenta auxiliar para indicação de apendicite — pois os exames laboratoriais estavam normais e os sinais clínicos não eram típicos.
Ainda segundo o relato, o médico que emitiu a carta teria autonomia para solicitar transferência diretamente via SAMU. Como clínica geral, porém, ela entendeu que precisava da confirmação por ultrassonografia.
A profissional afirmou que entrou em contato imediato com a clínica responsável, que se dispôs a realizar o exame naquele momento. Com o resultado da ultrassonografia em mãos, acionou o SAMU e comunicou o chefe da cirurgia do hospital, que ficou de prontidão para receber o paciente.
Evolução do quadro
Após a cirurgia, segundo ela, recebeu retorno do cirurgião sobre o estado da criança. Apesar dos esforços da equipe hospitalar, o menino evoluiu para óbito.
“Desejo toda paz e conforto à família. Mas em nenhum momento houve negligência da minha parte”, declarou.
Repercussão e ataques
A médica também criticou a exposição de seu nome em publicações e relatou estar recebendo mensagens com ofensas e ameaças.
“Fui chamada de arrogante, pediram para tirarem meu CRM e até desejaram minha morte. Fiz medicina por amor. Atendi 70 crianças apenas na segunda-feira de Carnaval”, afirmou.
Ela disse ainda que sente que profissionais de saúde, antes reconhecidos pelo trabalho durante a pandemia, hoje são tratados como vilões quando há um desfecho negativo.
“Querem um culpado. E o médico é sempre o alvo mais fácil”, completou.
Sepultamento
O corpo do menino foi sepultado na tarde de segunda-feira (23), no município de Perobal. O velório reuniu familiares e amigos, consternados com a perda precoce.
Morador do bairro Panorama, o garoto era descrito por vizinhos e colegas como uma criança alegre, carinhosa e sempre sorridente. Durante a despedida, o irmão mais velho, de 15 anos, com quem mantinha forte ligação, estava visivelmente abalado.