Dr. Eliseu Auth

Eliseu Auth

Martelando Tartufo

14/07/2020 07H35

Nesta semana Tartufo ficou martelando na minha cabeça. A comédia de Molière é do século 17 e denunciava a hipocrisia e falsa devoção de religiosos do seu tempo. Hipocrisias campeiam à mão cheia pela história. No seminário, a hipocrisia era muito combatida pelos padres que me educaram. Certo dia, no café da manhã, onde ninguém poderia conversar, o padre-prefeito que cuidava da disciplina me chamou de fingido porque atendi conversa de colega e parei quando ele se aproximou. Respondi no mesmo tom: “Fingido não! O senhor já tinha me visto conversar e eu parei em respeito ao senhor!” Não adiantou. Me deu castigo triplo: três semanas sem melado no pão, três semanas trabalhando na copa e três semanas varrendo as escadas do seminário na hora do recreio. Fiquei raivoso pela injustiça, mas me contive. No outro dia, voltei ao padre Zeno e repeti que não fui fingido e só parei de conversar por respeito a ele. Aí reconheceu o exagero na reprimenda, retirou o castigo e se desculpou.

Mesmo injustiçado, não fiquei com raiva do padre porque entendi que quis educar. Apontou armas para a simulação que só ele viu, onde se aparenta uma coisa e é outra. Essa hipocrisia faz ninho nos cabelos de quem quer para os outros o que não quer para si. Talvez explique a explosão de raiva do presidente e aliados contra o “Facebook” que derrubou uma rede de “fake news” e perfis falsos na sua plataforma. Fez isso não só aqui, mas em vários países, onde ódio, mentiras e ataques a instituições e pessoas eram disparados em série. Inclusive por máquinas. Como pode alguém incomodar-se com isso? Logo Bolsonaro que quer pousar de Catão da moral… Será porque foi atingido com seus aliados, inclusive um assessor direto? Para ser, não basta dizer que é. Vovó dizia: “por fora bela roba, por dentro pão bolorento”. Aí não dá pra evitar que na minha cabeça não volte martelando Tartufo.

(Eliseu Auth é promotor de justiça inativo, atualmente advogado).