Cotidiano

INVESTIGAÇÃO

Investigados ofereciam dinheiro, bola e estágio para obter conteúdo sexual de adolescentes em Xambrê

11/09/2026 13H09

Jornal Ilustrado - Investigados ofereciam dinheiro, bola e estágio para obter conteúdo sexual de adolescentes em Xambrê
Promotor Guilherme Franchi, os delegados Matheus Prado Amui Rodrigues e Thiago Araium Pinheiro durante coletiva na sede do MPPR, em Umuarama.

O vereador Edinalvo Lima Venturi, presidente em exercício da Câmara Municipal de Xambrê, e Pedro Henrique da Silva Mota, que ainda ocupava o cargo de secretário municipal de Cultura, foram presos preventivamente nesta sexta-feira (11) durante a Operação Gomorra.

A investigação apura possíveis crimes sexuais praticados contra pelo menos 16 adolescentes. Segundo o delegado do Gaeco Matheus Prado Amui Rodrigues, os investigados ofereciam dinheiro, pagamentos via Pix, bola e até estágio em órgãos públicos para atrair e persuadir as vítimas.

Após a deflagração da operação, Pedro Henrique foi exonerado do cargo de secretário municipal de Cultura. A medida foi oficializada pela Prefeitura de Xambrê por meio da Portaria nº 096/2026, com efeitos a partir de 11 de setembro.

A Operação Gomorra foi deflagrada pelo Núcleo de Umuarama do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Paraná, em conjunto com a Polícia Civil, por meio da 7ª Subdivisão Policial de Umuarama.

A forma de atuação dos investigados foi detalhada durante uma coletiva de imprensa realizada nesta sexta-feira na sede do Ministério Público do Paraná, em Umuarama. Participaram o promotor de Justiça Guilherme Franchi e os delegados Matheus Prado Amui Rodrigues e Thiago Araium Pinheiro.

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Abordagens ocorriam pelas redes sociais

Durante entrevista coletiva realizada na sede do Ministério Público, em Umuarama, Matheus Rodrigues explicou que os adolescentes eram abordados principalmente pelas redes sociais.

De acordo com o delegado, os investigados mantinham conversas prolongadas e insistentes para convencer as vítimas a produzirem e enviarem imagens de conteúdo sexual. Em troca, ofereciam diferentes vantagens, como dinheiro, transferências via Pix, bola e oportunidades de estágio em órgãos públicos.

“Eles aliciavam esses adolescentes por meio das redes sociais e, com persuasão, convenciam esses adolescentes a fornecer e registrar, eles próprios, esse material”, declarou o delegado.

Conforme Matheus Rodrigues, os contatos eram marcados pela insistência e pela tentativa constante de convencimento.

“Eles tinham o intuito de persuadir. Eram insistentes, muito persistentes, tinham conversações muito longas e duradouras, até que conseguiam finalmente o objetivo”, afirmou.

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Material era compartilhado entre os investigados

As investigações indicam que Edinalvo e Pedro agiam individualmente na aproximação com os adolescentes. Entretanto, eles teriam compartilhado entre si informações sobre as vítimas e os materiais obtidos.

A troca de informações permitiria que um investigado procurasse adolescentes anteriormente abordados pelo outro.

“Tudo indica que eles agiam individualmente, mas compartilhavam informações a respeito dessas vítimas posteriormente, para que pudessem buscar as vítimas uns dos outros”, explicou Matheus Rodrigues.

O delegado classificou o comportamento investigado como uma “conduta predatória”, caracterizada pela procura constante por novas vítimas.

Até o momento, não foram encontradas provas de que os conteúdos fossem comercializados ou publicados em sites. A investigação aponta que o material era obtido para uso dos próprios investigados e compartilhado entre eles.

“Eles pagavam aos adolescentes para que fornecessem esse material, mas não há provas de que pretendiam ou efetivamente venderam isso para a internet ou para outros sites. A princípio, era para eles mesmos”, esclareceu.

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Conversas começaram em 2021

As conversas analisadas pelos investigadores começaram no início de 2021 e continuaram, pelo menos, até o fim de 2025.

Segundo o delegado, nenhuma vítima com menos de 12 anos foi identificada até o momento. Os adolescentes localizados têm entre 13 e 17 anos e são todos do sexo masculino.

A princípio, as vítimas seriam moradoras de Xambrê, mas o Gaeco considera a possibilidade de haver adolescentes de municípios próximos entre os envolvidos.

O delegado também informou que os elementos reunidos indicam a possível ocorrência de atos consumados, além da produção e do armazenamento de conteúdo de violência sexual envolvendo adolescentes. Outros detalhes não foram apresentados para preservar as vítimas e não prejudicar as investigações.

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Investigado teria usado função pública e atividade religiosa

Um dos investigados teria utilizado a função exercida no município e sua atuação em uma instituição religiosa para se aproximar dos adolescentes. A entidade religiosa não foi identificada durante a coletiva.

Conforme Matheus Rodrigues, os primeiros contatos ocorriam presencialmente. Depois, as conversas passavam para as redes sociais e evoluíam para os pedidos de conteúdo.

“Um desses investigados se aproveitava desses ambientes religiosos, onde tinha contato com os adolescentes. Ele iniciava as conversações, posteriormente passavam para contatos pelas redes sociais e a situação evoluía a partir daí”, relatou.

Segundo o delegado, o investigado exercia atividades eclesiásticas e teria se valido dessa posição, além da função pública, para estabelecer contato com possíveis vítimas. A oferta de estágio em órgãos públicos também está entre as vantagens apontadas pela investigação.

Dois investigados permanecem presos

Durante a Operação Gomorra, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão, dois de busca pessoal e dois de prisão preventiva em Xambrê. As ordens foram expedidas pelo Juízo de Garantias da comarca.

O delegado confirmou que Edinalvo Lima Venturi e Pedro Henrique da Silva Mota foram os alvos das prisões preventivas. Os dois permanecem recolhidos e à disposição da Justiça.

Segundo Matheus Rodrigues, as prisões foram solicitadas diante do conjunto de provas reunido durante a investigação.

“Em razão do farto conjunto probatório que foi produzido, nós representamos pela decretação da prisão preventiva desses indivíduos e pelas demais medidas cautelares”, explicou.

Durante o cumprimento dos mandados, uma pessoa também foi presa em flagrante por posse ilegal de munições.

Investigação surgiu durante outra operação

A investigação teve início após o encontro fortuito de provas durante a análise de materiais apreendidos na Operação Res Privata, deflagrada em 4 de março de 2026.

O encontro fortuito ocorre quando indícios relacionados a outros possíveis crimes são descobertos no decorrer de uma investigação regularmente autorizada. A partir do conteúdo encontrado naquela operação, o Gaeco iniciou a apuração que resultou na Operação Gomorra.

Nas buscas realizadas nesta sexta-feira, as equipes apreenderam documentos, anotações e aparelhos celulares. Os materiais serão submetidos à perícia e poderão revelar novas condutas, vítimas ou testemunhas.

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Outras vítimas podem procurar as autoridades

O Gaeco acredita que outras vítimas ainda podem ser identificadas. Na avaliação dos investigadores, a influência política, funcional e social dos investigados pode ter dificultado que adolescentes ou testemunhas procurassem anteriormente as autoridades.

Com Edinalvo e Pedro presos preventivamente, a expectativa é de que outras pessoas se sintam seguras para relatar possíveis episódios.

“Nós acreditamos que outras vítimas, até então não identificadas, poderão surgir a partir de agora. Esses indivíduos fora de circulação, considerando que exercem uma influência local e um poder em razão dos cargos que ocupam, provavelmente fará com que outras vítimas e testemunhas se sintam estimuladas a nos procurar”, declarou o delegado.

Alerta aos pais

Ao final da entrevista, Matheus Rodrigues orientou pais e responsáveis a acompanharem os contatos mantidos pelos filhos na internet. O alerta é principalmente para conversas envolvendo pedidos de imagens e promessas de dinheiro, presentes, oportunidades ou outras vantagens.

“É imprescindível que os pais estejam sempre atentos aos filhos, ao tipo de conversa e às pessoas com quem eles se relacionam nas redes sociais”, afirmou.

As investigações continuam sob responsabilidade do Gaeco de Umuarama, com apoio da 7ª Subdivisão Policial. A responsabilidade criminal dos investigados será analisada no decorrer do processo, com garantia do contraditório e do direito de defesa.



O Ilustrado tenta contato com a defesa dos investigados, porém, até a publicação desta reportagem não havia obtido êxito.