Umuarama

INFORME UEM AGRÍCOLA

Impacto da pandemia no preço e oferta dos alimentos

30/08/2020 09H36

João Henrique Castaldo

Professor da UEM – Campus de Umuarama

O ano de 2020 claramente é um dos anos mais atípicos dos últimos tempos. Começamos o ano com ameaça de terceira guerra mundial, entramos na maior pandemia desde a gripe espanhola no início dos anos 1900, passamos por terremoto no Oeste americano, nuvem de gafanhotos na América Latina e estamos nos aproximando do fim do ano ainda com distanciamento social e novos costumes que devem permanecer para a posteridade. Além dos impactos na nossa vida social, a pandemia trouxe reflexos na economia mundial afetando os preços dos alimentos.

Em razão da pandemia, o mundo viu um arrefecimento das economias por todos os continentes, com queda nos produtos internos brutos (PIBs), aumento de desemprego e necessidade de auxílio governamental às famílias. O PIB do Japão, por exemplo, teve uma redução de 27% no segundo trimestre sob cuidados com a pandemia, comparado ao primeiro trimestre, que teve menor influência do isolamento social. Esta freada econômica forçou as famílias a se adaptarem a uma nova realidade financeira até que os auxílios governamentais fossem aprovados e apresentassem resultados, sendo este o primeiro fator responsável pela alteração nos preços dos alimentos pois houve elevação do receio que a pandemia traria impactos ainda mais drásticos para a economia como um todo, causando demissões e reduzindo o consumo, principalmente.

Em sequência, o próximo fator a influenciar os alimentos foi o dólar, que influencia diretamente no custo dos insumos para a produção das hortaliças, frutas e grãos, estes com maior intensidade, impactando diretamente no custo da alimentação dos animais. A cotação da moeda americana iniciou o ano em 4,02 no dia 02 de janeiro e atingiu a sua máxima histórica no dia 13 de maio, cotado a 5,92, o que representa uma alta de mais de 47% dentro do mesmo ano. Influências políticas internas contribuíram com a pandemia para esta alta expressiva do dólar frente ao real, que é mundialmente a moeda que mais se desvalorizou em 2020.

Desta forma, os grãos, em especial a soja e o milho tiveram elevação na sua cotação no ano de 45 e 25% respectivamente, incluindo o rompimento da barreira dos R$ 100,00 na saca de soja paga aos produtores. Embora a soja não seja um produto que os brasileiros a consomem diretamente diariamente, excluído o uso do óleo de soja, o subproduto farelo de soja é parte fundamental da alimentação de animais, frangos e porcos principalmente, o que de certa forma tem direta ligação com o custo da alimentação diária dos brasileiros. No entanto, o consumo mundial de frangos e porcos apresentou leve redução no fim do primeiro trimestre e início do segundo trimestre em razão do receio dos impactos da pandemia, restando um saldo de produto que não foi exportado no mercado interno, o que até reduziu o custo destes produtos no Brasil, porém, a expectativa é que este consumo mundial se normalize no segundo semestre, o que pode trazer elevação aos preços no mercado interno e esta elevação pode ser ainda mais proeminente em caso de manutenção dos atuais níveis do dólar.

Já o mercado de carne bovina, que tem menor dependência do preço dos grãos, foi impactado pela alta do dólar pois o mundo conseguiu comprar mais carne brasileira com menos dólares, tornando a exportação da carne bovina um dos negócios que mais se beneficiaram desta nova realidade financeira mundial. A arroba bovina que no início do ano era cotada a R$ 190,00, atingiu valores superiores à R$ 250,00. Somado à esta elevação da cotação, a alta no custo de alimentação dos animais confinados, que são fonte importante de matéria-prima no período de seca e inverno, os pecuaristas decidiram levar um maior número de matrizes ao abate, no intuito de aproveitar os bons preços da arroba. No entanto, estas matrizes farão falta na reposição de bezerros futuramente e esta confluência de fatores já elevou o preço dos animais desmamados de R$1.500,00 / cabeça em janeiro, para os atuais R$ 2.000,00, o que certamente pressionará para cima os preços de venda de animais gordos no futuro.

O leite é outro produto que teve sua oferta, demanda e preços alterados pela pandemia, o valor do produto que apresentou redução no início do ano e no início da pandemia, em razão do menor consumo por parte das famílias, agora apresenta sucessivas altas, saltando 30% no acumulado do ano, com elevação de 15% entre junho e julho, atingindo o segundo maior valor desde 2004. Espera-se uma alta adicional de 10% para o mês de agosto, o que deve levar ao maior valor da série histórica. O custo médio de produção do leite subiu cerca de 5% no ano, mas os produtores tecnificados que utilizam animais que demandam maior volume de concentrado, observaram aumento do custo em mais de 10%, o que explica parte da alta do produto, o restante da alta se deve principalmente à redução da produção observada nos meses de abril a maio, em que os produtores secaram as vacas pela redução no consumo naquele período.

De forma geral, a pandemia provocou uma queda no desenvolvimento das economias mundiais, trouxe incertezas às famílias e desvalorizou nossa moeda, impactando significativamente os preços dos alimentos. A expectativa é que com o retorno à normalidade social, estes impactos sejam reduzidos e os preços se estabilizem, não necessariamente no mesmo nível pré-pandemia. Vale a pena acompanhar.