Direito em Debate

Luís Irajá

Igreja versus religião:será que a igreja católica foi instrumentalizada pelo partido dos trabalhadores?

01/11/2019 20H32

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Dai a César o que de César, e a Deus o que é de Deus”

São Marcos era muito próximo de Jesus. Consta na história que a Santa Ceia celebrada por Jesus, bem como o dia de Pentecostes aconteceram na casa de Marcos. Ele nos ensina que a frase acima é recheada de sabedoria. Sabedoria esta que põe cada coisa e cada pessoa no seu lugar. Marcos nos diz que com a resposta acima, Jesus silencia os Fariseus. Mostra-lhes que veio a este mundo, para que, vivendo nele cumpra também seus deveres, mas sem compactuar com os erros dele. Isto para os nossos dias é de suma importância, pois, convém lembrar que os Fariseus se aproximaram de Jesus, mal intencionados.

Diante do flagrante envolvimento da Igreja Católica no Brasil com o Partido dos Trabalhadores, não estaria ela compactuando com os erros (corrupção) do partido? Será que a Igreja Católica está se distanciando da religião? A política social praticada pela Igreja Católica no Brasil, como missão apostólica, também permite o engajamento político partidário? Nesse caso como fica a ética cristã?

Segundo Langston, “a religião é a vida do homem nas suas relações sobre humanas, isto é, a vida do homem em relação ao Poder que o criou, à Autoridade Suprema acima dele, e ao Ser invisível com Quem o homem é capaz de ter comunhão. Religião é vida com Deus.” Por outro lado,
“a Igreja, seja como prédio, seja como comunidade é um complexo de burocracias para atender às demandas estatais e sociais, que envolve questão tributária, militar, educativa, entre outras. A vida da igreja não é religião. É vida social. Religião é a força que faz o homem buscar a mudança interior para ser bom e assim agradar a Deus. A Igreja trata das relações sociais e políticas. A religião trata das relações humanas e espirituais”.

O padre Paulo Ricardo denuncia em seu programa que o Partido dos Trabalhadores teria “instrumentalizado” e “dominado” a Igreja Católica no Brasil. De acordo com o sacerdote, há cumplicidade de alguns teólogos da Igreja, bem como muitos católicos omissos para que a Igreja seja “domesticada” para os interesses do PT. Indignado, o sacerdote afirma que sente-se envergonhado e indaga onde estão os católicos questionadores que iam às ruas lutar pela ética e moral cristã? Pela liberdade? Afirma ainda, que esse papel, outrora desempenhado pelos católicos, hoje é feito pelos evangélicos. Para o PT a oposição, hoje, é representada pelos evangélicos, pois, os católicos já estão “domesticados”, não questionam mais nada.

Recentemente foi divulgado na mídia que expoentes da Igreja Católica de São Paulo, estavam fazendo reunião partidária, com expoentes do PT dentro da Igreja, decorada com bandeirinhas estampando a frase “Lula Livre”. Ou seja, a Igreja à serviço da corrupção. Outro episódio aconteceu em Aparecida do Norte, no mês passado, onde padres e bispos fizeram pregações com apologias ao PT, no dia de Nossa Senhora, aproveitando-se do grande fluxo de fiéis.

Será que o PT usou de violência para cooptar os líderes da Igreja? Não, isso não aconteceu. Segundo o padre Paulo Ricardo acordos imorais e vergonhosos foram fechados entre líderes da Igreja e do PT. E continua dizendo: o convencimento de alguns lideres da Igreja Católica no Brasil, bem como de vários católicos se deu através da mudança no discurso. Diz ele: “se o povo soubesse como se produz teologia nesse país; como se produz discurso eclesiástico nesse país, não se submeteria a tais regras”. Por fim, o sacerdote afirma: não é um discurso baseado nos evangelhos e na fidelidade à Jesus Cristo. É um discurso baseado nos interesses do PT. É um discurso blasfemo e imoral. Essa não é a verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Diz ele: Eu não faço parte dessa farsa, dessa loucura. Eu não estou no bolso do PT. Não sou, não serei e não aceito ser teólogo do PT.

Revoltado o sacerdote Paulo diz que nós cristãos, incluindo também os evangélicos, temos uma antiquíssima tradição, qual seja, a desobediência civil. Afirma ele que Nosso Senhor Jesus Cristo disse: “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Por esse princípio colocado por Jesus, os apóstolos disseram: “convém antes obedecer a Deus do que aos homens”. Portanto, se os homens começam a legislar, a colocar regras e a perverter toda ordem social, fazendo coisas que são declaradamente contrárias a ordem divina, nós devemos desobedecer. Não compactuo com um partido, bem como um governo que não tenha ética cristã. Conclui o sacerdote.

São Marcos nos ensina que o cristão não pode viver alienado no mundo, pois é sal e luz, vivendo para fazer uma diferença saudável na comunidade, mas sem se esquecer de sua cidadania celestial, atuando como embaixador de Deus, para com os que estão à sua volta, a começar pelo marido, esposa, filhos, parentes e amigos.

Assim, a Igreja Católica no Brasil, se tinha no PT um partido ético e moral, não pode ignorar as falcatruas e a corrupção escancaradas que o assolaram e deterioraram, contrariando os sábios ensinamentos do Mestre Jesus Cristo.

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Advogado no Paraná – Palestrante

Professor do Curso de Direito da UNIPAR

iraja@prof.unipar.br