Cotidiano

ENTREVISTA COM ESPECIALISTA

Hipervitaminose: moda das vitaminas pode trazer riscos sérios à saúde 

09/09/2025 08H15

Jornal Ilustrado - Hipervitaminose: moda das vitaminas pode trazer riscos sérios à saúde 

O consumo de vitaminas virou tendência entre pessoas que buscam saúde e bem-estar, mas médicos alertam que o uso sem orientação pode provocar uma “toxicidade silenciosa”, conhecida como hipervitaminose. Quando ingeridas em excesso, as vitaminas deixam de ser aliadas e passam a causar sérios prejuízos à saúde.

Casos recentes no país demonstram o perigo real dessa prática. No interior da Bahia, a empresária Perinalva Dias Paiva entrou em coma por 28 dias depois de receber sessões de “soro da imunidade” ricas em vitamina D. O quadro severo levou à falência múltipla de órgãos, com os rins e o fígado parando de funcionar. Em São Paulo, uma corretora de imóveis passou por quatro cirurgias após injeções de vitaminas B12 e D indicadas por uma especialista — a intoxicação evoluiu para risco de sepse (síndrome clínica de disfunção de órgãos com risco de vida, causada por uma resposta desregulada a infecções). Outros casos incluem a intoxicação de uma aposentada que recebeu alta dosagem de vitaminas por um dentista, quase precisando de hemodiálise e passando meses na UTI.

O país já registra 240 notificações de problemas com suplementos vitamínicos desde o ano passado, sendo 28% delas de efeitos graves, segundo a Anvisa.

O Ilustrado conversou com o cardiologista e clínico geral Dr. Rodolfo de Faria Carvalho, que esclareceu pontos importantes sobre o tema.

Quando a suplementação é necessária?

Segundo o médico, a indicação só deve ser feita em casos de deficiência comprovada por exames, ou em situações específicas como gestação, lactação, infância, envelhecimento e em doenças que prejudicam a absorção intestinal. Também pode ser recomendada a pessoas com dietas restritivas ou em uso prolongado de determinados medicamentos.

Uso deve ter prescrição

O especialista reforça que tomar vitaminas por conta própria é perigoso. “O uso seguro deve ser orientado por médico ou nutricionista, que avaliam a real necessidade, o tipo e a dosagem correta. A automedicação pode mascarar doenças, causar interações medicamentosas e levar à toxicidade por excesso”, afirma.

Riscos do consumo indiscriminado

O uso sem acompanhamento profissional pode provocar sobrecarga do fígado e dos rins, atrapalhar o funcionamento celular e até reduzir a absorção de outros nutrientes. “Além disso, pode comprometer processos metabólicos importantes, gerando riscos para diferentes órgãos”, alerta o médico.

Sintomas e consequências

Os efeitos da hipervitaminose variam de acordo com a vitamina em excesso, mas os principais sintomas incluem náuseas, vômitos, dor abdominal, fadiga, alterações de humor e lesões na pele. Em casos graves, podem surgir problemas neurológicos, cardíacos, renais e hepáticos, detectáveis apenas em exames.

Vitaminas mais perigosas

As maiores ameaças vêm das vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K). Por ficarem armazenadas no fígado e no tecido adiposo, acumulam-se com mais facilidade. O excesso pode provocar hepatotoxicidade, hipercalcemia, distúrbios de coagulação, alterações neurológicas e até falência de órgãos.

Hipervitaminose pode matar?

A resposta é sim. “Em situações extremas, principalmente com o uso prolongado e em altas doses, pode haver evolução para insuficiência hepática, insuficiência renal, arritmias graves e até óbito”, explica o Dr. Rodolfo.

O que fazer em caso de intoxicação?

O primeiro passo é suspender imediatamente o suplemento e procurar atendimento médico. O tratamento envolve exames clínicos e laboratoriais, hidratação adequada e, se necessário, internação hospitalar para controlar complicações.

O médico reforça que, apesar de serem fundamentais para o organismo, as vitaminas devem ser vistas como medicamentos: “Elas só fazem bem quando usadas na dose certa e sob supervisão. Em excesso, deixam de proteger e podem se transformar em veneno”.