Umuarama

FÉ, ALEGRIA E LONGEVIDADE

Frei Clemente Vendramin chega aos 103 anos de vida com saúde e trabalhando

16/08/2026 07H01

Jornal Ilustrado - Frei Clemente Vendramin chega aos 103 anos de vida com saúde e trabalhando

Umuarama – São poucos os que recebem a dádiva de se tornarem centenários com lucidez e saúde. Frei Clemente Vendramin, conhecido por sua alegria e carisma, está neste seleto grupo. “Tristeza é pro capeta, não é pra nós, né?!”afirmou de forma descontraída.

Neste domingo, 16 de agosto, ele completa 103 anos de vida, com uma celebração eucarística junto a comunidade e na felicidade de louvar a Deus, marcada pela homenagem dos antigos integrantes do coral Pequenos Cantores de São Francisco, criado nos anos 1980 pelo frade capuchinho. A missa será às 9h30 na Paróquia São Francisco de Assis, em Umuarama.

Nesta sexta-feira (14), recebeu o Ilustrado para uma conversa. De sorriso fácil e um humor admirável, salientou que no momento vive com alegria seus dias, embora a saúde não esteja muito boa.

Mas uma dor aqui e um desconforto ali, não impedem o religioso de manter uma rotina de atendimentos. Durante as manhãs, ouve as confissões na Paróquia São Francisco de Assis. No ano em que completa 80 anos de sacerdócio, ocupa a posição de frei capuchinho mais idoso em atividade no Brasil, segundo a Província São Lourenço de Brindes.

Papa

Durante a entrevista relembrou momentos curiosos e especiais de sua vida. Entre eles quando serviu como assistente do Papa Pio XII em uma celebração, no período em que esteve na Itália. “Éramos oito sacerdotes na igreja naquele dia, mas somente um poderia servir como auxiliar. Peguei o missal e fiquei na entrada esperando. O Padre Pio só falou, vai, vai e eu fui”, relembrou.

Foi neste período que se tornou Doutor em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma. “Eu nunca tinha saído de Curitiba. Me colocaram num ônibus em Curitiba e disseram: vá pra São Paulo e veja lá como é que você vai pra Santos, porque o seu navio está em Santos. Fui sozinho e não me perdi. Foram11 dias no mar. Nossa Senhora! É gostoso, viu?”

Umuarama

Na volta ao Brasil atuou na formação de religiosos, tradutor e na evangelização. Passou por diversas cidades paranaenses até chegar a Umuarama em 1.979, onde ficou por 15 anos. Criou o coral Pequenos Cantores de São Francisco, popularmente chamado de “Coralzinho”.

Dezoito anos depois, em 2012, retornou à Capital da Amizade, onde permanece até o momento. Contou que dos prazeres que sempre apreciou sente saudades de dirigir corais e carros, jogar xadrez e caçar perdizes no campo. “Não tem galinha que seja bom igual a uma perdiz”, disse saudoso. Entre os hábitos que mantém estão a música clássica e os discos de André Rieu (violinista e regente neerlandês).

Longevidade

O segredo da longevidade é sábio e perspicaz para os dias de hoje, onde tudo se resume a tempo ou a falta dele. “Cuidado com a comida e com a bebida e o descanso. Acho que todo mundo gosta de passar dos 100, né!? Trabalhe com muita moderação para não se arrebentar. Cuida da bebida e da comida e descanse o necessário”, afirmou Frei Clemente.

Já para as novas gerações, o conselho é aceitar o chamado de Deus, que pode se manifestar na vocação religiosa ou de leigo.

Ao longo de mais de um século de vida, viu oito papas serem escolhidos e teve o privilégio de conhecer dois pessoalmente, Pio XII e João Paulo II. Viu a missa deixar de ser celebrada em latim e de costas para a plateia, passou pela Segunda Guerra Mundial, viu a criação do Estado de Israel, ser erguido e derrubado o Muro de Berlim e a transformação de uma sociedade rural em urbana e tecnológica, onde atualmente o mundo está na palma da mão.

Como tudo começou

Esse neto de italianos venezianos, nasceu em 1923 com o nome de Sezefredo Vendramin, por escolha da mãe, que lia na época a história de um príncipe alemão chamado Siegfried. A família morava na então Vila Felicidade, que mais tarde se tornou um dos bairros mais tradicionais de Curitiba, Santa Felicidade, conhecida pela grande colônia italiana e pelos restaurantes. Foi ali que os pais Sebastião Vendramin e Clara Muraro criaram os oito filhos.

O contato com os frades capuchinhos veio na tenra infância, quando freis italianos iam até a casa da família para matar a saudade da língua materna. “Eles colocavam a gente no colo e esfregavam aquelas barbas compridas”, relembrou. Essa proximidade tornou natural a ida para o Seminário Nossa Senhora das Mercês, aos 10 anos de idade.

Aos 22 anos, foi ordenado sacerdote, dois anos antes do autorizado pelas leis canônicas. Neste momento, adotou o nome de Frei Clemente Vendramin. “Era tempo de guerra (2ª Guerra Mundial) e o arcebispo de Curitiba mandou ordenar”, explicou. Foi um período difícil para manter a comunicação com a Europa. A primeira celebração foi em 10 de março de 1946, na matriz de Santa Felicidade, em Curitiba.