REGIÃO

Enquanto motoristas enfrentam longos períodos de espera para atravessar a balsa sobre o Rio Piquiri, na BR-272, entre Francisco Alves e Terra Roxa, trabalhadores autônomos têm transformado o transtorno em oportunidade de renda. Aproveitando as filas que, em alguns horários, chegam a durar até duas horas, vendedores de cidades da região circulam entre os veículos oferecendo bebidas, alimentos e doces.

Dependendo do período do dia, a lentidão na travessia exige paciência dos condutores. Em meio ao calor intenso, a presença dos ambulantes acaba sendo bem-vinda por muitos motoristas, que encontram nos produtos uma forma de aliviar o desconforto da espera.
Um dos autônomos é o jovem Lucas Nascimento, de 20 anos, morador de Guaíra. Ele passa veículo por veículo com uma caixa térmica e um guarda-sol, oferecendo chips, água e refrigerantes. Lucas trabalha com o pai diariamente, sempre no período da tarde, e viu na movimentação da balsa uma nova chance de ampliar as vendas. “Sempre vendemos nas ruas de Guaíra. Agora, aqui na balsa, vimos uma grande oportunidade”, contou.

Bem equipado para enfrentar o sol forte, Lucas utiliza calça, camisa de manga longa, óculos escuros e um chapéu. A caixa térmica, onde acondiciona as bebidas, é transportada em um carrinho de mão adaptado com um guarda-sol, que o protege do calor. Por volta das 16h, os termômetros marcavam cerca de 35 °C no local.
Outro vendedor que apostou na fila como fonte de renda é João Meira, de 44 anos, morador de Iporã. Ele vende o tradicional quebra-queixo, doce brasileiro feito à base de coco, muito comum em festas juninas e parques de exposições. João disse que está no local desde o primeiro dia de funcionamento da balsa.

Casado e pai de dois filhos, ele tem no doce produzido pela esposa o sustento da família. João trabalha de terça a sexta-feira e, quando não está na balsa, vende seus produtos nas cidades da região, inclusive em Umuarama, de porta em porta. “Os motoristas gostam. Muitos acham que vai ser rápido, mas quando chegam aqui e veem a fila grande, só um doce mesmo para aliviar o estresse”, brincou.
Com apenas um chapéu para se proteger do sol, João enfrenta o calor usando camisa sem manga e calça, demonstrando a rotina dura de quem depende da venda informal.
Além deles, a equipe do Ilustrado também observou uma mulher que vendia sorvetes e bebidas no local, mas não foi possível conversar com ela, pois no momento havia chegado a vez de a equipe realizar a travessia.

Motoristas relatam dificuldades e elogiam apoio dos vendedores
Entre os condutores que aguardavam na fila, o sentimento predominante era de cansaço. Carlos Henrique Ribeiro, de 38 anos, caminhoneiro de Cascavel, relatou que ficou quase duas horas parado.
“A gente chega achando que vai ser rápido, mas a fila anda devagar. Pelo menos o pessoal que vende água ajuda bastante, senão ficava complicado com esse calor”, afirmou.
Já Maria Aparecida Lopes, de 56 anos, que viajava do Paraguai para São Paulo, reclamou da falta de estrutura. “O pior é o banheiro. Só tem um, sujo e com cheiro forte. Para mulher fica praticamente impossível usar. Se não fossem os vendedores passando com água e refrigerante, a espera seria ainda pior”, disse.

Outro motorista, Rogério Alves, de Umuarama, destacou que os autônomos acabam prestando um serviço essencial. “Eles ajudam muito. A fila estressa, o calor castiga, e ter alguém oferecendo um lanche ou uma bebida faz toda a diferença”, comentou.

Balsa passa a operar 24 horas
Desde quinta-feira (22), a balsa passou a operar em regime de 24 horas. A ampliação do horário ocorreu após a conclusão da instalação do sistema de iluminação no trecho de embarque, o que permitiu a operação noturna. Antes disso, a travessia funcionava apenas das 6h às 18h, o que provocava filas ainda maiores e atrasos constantes.
Segundo o DNIT, a operação contínua busca reduzir o tempo de espera e melhorar o fluxo de veículos na rodovia.

Segunda balsa
Apesar da expectativa criada nos últimos dias, a travessia do Rio Piquiri continua sendo realizada por apenas uma embarcação. O DNIT havia sinalizado, por meio de sua assessoria de imprensa, que uma segunda balsa começaria a operar nesta quinta-feira (22), mas isso não se confirmou.
No local, servidores do órgão informaram à reportagem do Ilustrado que a entrada da nova embarcação foi remarcada e deve ocorrer somente a partir do dia 10 de fevereiro. Até lá, o sistema segue funcionando com capacidade limitada, mesmo com a ampliação do horário para 24 horas.

Embora a redução das filas já seja perceptível em relação aos primeiros dias de operação, a espera ainda exige paciência dos motoristas. Em momentos de fluxo moderado, o tempo médio varia entre 40 minutos e uma hora, enquanto nos períodos de maior movimento a demora pode chegar a duas horas.
A própria equipe do Ilustrado enfrentou essa realidade ao retornar de um compromisso oficial em Guaíra, que contou com a presença do governador Ratinho Junior, permanecendo aproximadamente duas horas na fila até a liberação da travessia.
Falta de estrutura e risco de conflitos
Outro problema observado foi a precariedade da estrutura disponível aos usuários. Há apenas um banheiro no local, destinado originalmente aos funcionários da obra, mas que também vem sendo utilizado por motoristas. O sanitário estava sujo, com odor forte e praticamente inutilizável, principalmente para o público feminino.

Também foram registradas situações de condutores que tentavam furar a fila, gerando revolta entre os demais motoristas. Em caso de discussão ou confusão, o cenário preocupa, já que não há presença de segurança no local.
Nota do DNIT
O DNIT informou que a operação da segunda balsa está prevista para o mês de fevereiro. A autarquia destacou ainda que, desde quinta-feira (22), a balsa em operação passou a funcionar 24 horas por dia, o que deve contribuir para a melhoria do fluxo.

Segundo o DNIT, o tempo estimado de travessia é de aproximadamente 15 minutos, com capacidade máxima de até 320 toneladas. O controle de peso é realizado por agentes de trânsito, com base nas notas fiscais de carga e no limite de veículos permitido por viagem.
A operação é provisória e será mantida enquanto a ponte sobre o Rio Piquiri permanecer interditada para serviços de recuperação estrutural. O DNIT afirma que segue monitorando a situação para garantir segurança e melhor atendimento aos usuários da rodovia.

Daniel Oliveira – Ilustrado