em Cafezal do Sul

O desabafo do produtor Almir Rogério Agostino, de Perobal — “Estamos trabalhando sem ganhar nada” — resume o sentimento de centenas de famílias que enfrentam a pior crise da cadeia leiteira dos últimos anos. Nesta sexta-feira (31), cerca de 300 produtores e apoiadores se reuniram às margens da PR-323, no trevo de Cafezal do Sul, em uma manifestação pacífica que pede valorização da produção nacional e medidas urgentes contra o leite importado.

O protesto começou por volta das 9h e segue até as 14h, reunindo produtores de Umuarama, Alto Piquiri, Pérola, Altônia, Xambrê, Palotina, Perobal, Tapira, Tapejara, Cafezal e outros municípios da região Noroeste.

O movimento, acompanhado pela Polícia Militar e Polícia Rodoviária Estadual, ocorre sem bloqueio da rodovia e busca chamar a atenção das autoridades estaduais e federais para uma realidade alarmante: o preço pago pelo litro do leite em outubro foi de R$ 2,33, enquanto o custo de produção chegou a R$ 2,50.

Cartazes e faixas espalhados pelo local expressam a indignação da categoria com frases como “Sem preço justo não existe produção”, “Mais que um protesto, um grito pela nossa dignidade” e “Produtor valorizado é campo fortalecido”.

“Queremos dignidade e igualdade de condições”, afirma vereador e produtor
Um dos organizadores do ato, o vereador e produtor Wagner Miqueloni, de Alto Piquiri, afirmou que o movimento é pacífico, mas reflete a revolta de quem trabalha muito e vê o lucro desaparecer.
“Na semana passada foi aprovada a Lei Estadual 888/2023, que proíbe a reconstituição de leite em pó importado para venda como leite fluido no Paraná. Agora queremos levar essa conquista para o âmbito nacional e lutar por uma adequação nos impostos, porque os produtores estrangeiros não enfrentam a mesma carga tributária que nós”, disse.

“Está mais caro alimentar o gado do que vender o leite”
Para o produtor Almir Rogério Agostino, de Perobal, o cenário é de desespero.
“Desde criança eu trabalho com leite, ajudava meu pai. Mas agora está difícil demais. Está mais caro alimentar o gado, comprar produtos de limpeza, remédios… Estamos trabalhando sem ganhar nada”, lamentou.

Ele explica que o custo de produção superou o valor pago pela indústria: “Nessa conta, não há lucro. A gente está resistindo, mas muitos colegas já desistiram. Se nada mudar, teremos que vender tudo e ir pra cidade.”

Casado e pai de três filhos, Almir diz que a única renda da família vem da produção leiteira. “Tive amigos que venderam as vacas por preço baixo e foram trabalhar em empresas da região. A gente vê o sonho ir embora. E é triste, porque o leite é tudo que a gente tem.”

“Um copinho de pinga custa mais que um litro de leite”
O presidente do Sindicato Rural Patronal de Altônia, Braz Reberte Pedrini, fez um desabafo que arrancou aplausos dos presentes:
“Um copinho de pinga ou uma garrafa de água custa R$ 3,00, e nossos produtores precisam vender o leite a R$ 2,00. É um absurdo. Além disso, os insumos só aumentam.”

O presidente do Sindicato Rural de Palotina, Edmilson, que atua há mais de 25 anos na atividade, também criticou as importações de leite em pó do Mercosul e da Nova Zelândia, afirmando que elas ameaçam a sobrevivência da produção nacional.
“Se continuarmos permitindo a entrada desses produtos, o pequeno e o médio produtor, que vivem da agricultura familiar, vão desaparecer.”

União e resistência da categoria
A produtora Renata Proiete, de Pérola, destacou o papel das mulheres e o sentimento de união:
“Estamos aqui por amor ao que fazemos e por necessidade. O leite é a base da renda de milhares de famílias. O que pedimos é apenas preço justo e respeito pelo nosso trabalho.”

Já Luciano Caetano, conhecido como Avatar, produtor e CEO da cooperativa Peroleite, classificou o ato como um marco de resistência:
“Não estamos aqui por política, mas por sobrevivência. Se o leite morrer, o campo morre junto.”
O médico veterinário e presidente do Conseleite-PR, Eduardo Lucacin, alertou que o Paraná vive um dos momentos mais delicados de sua história na cadeia produtiva:
“O leite importado chega com custos e exigências menores, e isso cria uma concorrência desleal. Precisamos de políticas públicas que equilibrem o jogo.”

Crise e reivindicações
Segundo a Fetaep, em algumas regiões do Estado o litro do leite é pago a menos de R$ 2,00, o que “faz o pequeno agricultor pagar para trabalhar”. Já a FAEP reforça que o valor atual não cobre o custo médio de produção, estimado em R$ 2,62 por litro, conforme o Conseleite-PR.
Entre as principais reivindicações dos produtores estão:

A importância do leite para o Paraná
O Paraná conta com cerca de 110 mil propriedades produtoras, sendo 86% familiares. Em 2024, foram produzidos 4,6 bilhões de litros de leite, movimentando R$ 12,1 bilhões — o que coloca o Estado como segundo maior produtor do país, atrás apenas de Minas Gerais.

Para os manifestantes, mais do que uma questão econômica, trata-se de sobrevivência e dignidade.
“Mais do que um protesto, este é um grito por dignidade e por sobrevivência. Se o campo parar, a cidade sente. O leite é vida, e precisamos de políticas que nos permitam continuar produzindo”, afirmou um dos produtores ao microfone do caminhão de som.

A manifestação segue até o início da tarde, com promessa de novos atos em outras regiões caso o Governo Federal não apresente medidas concretas de apoio ao setor.

















