Colunistas

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

ESCOLAS E UNIVERSIDADES SEM ALUNOS E PENITENCIÁRIAS COM SUPERLOTAÇÃO

12/05/2019 08H00

Santo Agostinho é considerado um dos principais responsáveis pela elaboração do pensamento cristão. O filósofo nasceu no ano 354 dC em Thagaste, atual Argélia, em uma família de classe alta. Em Milão (Itália), estudou e lecionou filosofia e retórica. No ano de 388 dC decidiu voltar à África. Se desfez de toda sua riqueza e doou aos pobres. Ficou apenas com uma casa de sua família que a transformou em mosteiro. Em 391 dC, foi ordenado sacerdote da Diocese de Hipona (Argélia), e, quatro anos mais tarde bispo. Em seus ensinamentos dizia que não basta fazer coisas boas, é preciso fazê-las bem. Para que algo dê certo – seja uma tarefa, plano ou objetivo – precisamos de determinação e comprometimento com aquilo que desejamos cumprir. A vontade é importante, mas não vale de nada sem o esforço, o empenho e o compromisso. Por isso, afirma Agostinho, coloque o seu coração em tudo o que for fazer. Não se contente em finalizar metas, mas em aprender durante o percurso e dar o melhor de si em cada novo desafio.
As escolas e as universidades estão sem alunos, principalmente, as públicas. O livre arbítrio deferido às crianças, adolescentes e jovens e/ou aos seus representantes legais, tem afugentado os alunos da sala de aula. Com a constante desfiguração da família, o problema ficou pior. Essa excessiva liberdade faz os mesmos decidirem em ficar em casa ou na rua em completa ociosidade. O tempo é ocupado com o uso ignóbil da tecnologia ou no planejamento da prática de atos ilícitos. Furtos, roubos, uso e tráfico de drogas, crimes sexuais, danos ao patrimônio público e particular (vandalismo), violência doméstica, completo desrespeito às autoridades constituídas. A grande maioria sem limite e disciplina. A meta é formar gangs. Os pais já não exercem mais a autoridade sobre os filhos. Apesar da legislação ser rigorosa no trato da criança e do adolescente, pouco avanço foi conquistado nos últimos trinta anos.
Darcy Ribeiro, antropólogo, fez previsão em 1982 dessa atual situação caótica da sociedade brasileira. Disse em uma conferência estadual que “se os governantes não construírem escolas, em vinte anos faltará dinheiro para construir presídios”. Tinha razão. Todavia, temos alguns centros de excelência.
Na atual conjuntura do país, convém questionar: por que os alunos das escolas militares, de algumas escolas públicas e de algumas escolas particulares não faltam às aulas e levam uma vida em completa ordem e disciplina? Por que procuram se afastar da prática de crimes? Por que respeitam seus pais, professores e demais autoridades? Por que são engajados em projetos sociais de ajuda ao próximo e ao meio ambiente? Por que dentro de casa ajudam a família nas tarefas domésticas sem esboçar rebeldia? Creio que a verdadeira educação deve ser ministrada com “afetuosa firmeza”. Nas palavras de Santo Agostinho é necessário determinação e comprometimento. Tenho certeza, absoluta, que todos os profissionais destas escolas que se destacam no cenário nacional, desempenham suas funções com extraordinária qualidade e motivação ímpar. A organização e a remuneração justa fazem parte do processo.
Um dos motivos para cortes no orçamento da educação é a falta de alunos. Muitas universidades públicas estão lotadas de funcionários com salas de aulas vazias. Mesmo sem turmas de alunos os professores e funcionários continuam ganhando o mesmo salário. Nas universidades particulares, também há ausência de alunos. Entretanto, os professores são remanejados para outras turmas de outros cursos ou são demitidos. O Estado não tem essa opção de demitir. Além disso, deve suportar o pesado ônus de custear gigantescas instalações ociosas. Algumas Instituições Públicas pagam para o aluno a alimentação, o transporte e bolsa de estudos. Mesmo assim o aluno não aparece para estudar. O índice de evasão escolar é alarmante. Isso está acontecendo há décadas. É dever da família, da escola e do Estado educar as crianças. No entanto, é função do Estado implementar políticas que garantam a tranquilidade, a ordem e o bem comum de todos.
Os dados mostram que a escolaridade na população carcerária é baixa e a realidade nos mostra que se houvesse escolas de qualidade, de fato, eles poderiam ter um futuro diferente. A boa escola sempre será o único meio de transformação. Não basta fazer coisas boas, ensina Agostinho, é preciso fazê-las bem. Assim, se não houver investimentos em boas escolas, infelizmente, continuaremos a assistir o crescente aumento da população carcerária.

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior
Advogado no Paraná
Professor do Curso de Direito da UNIPAR
iraja@prof.unipar.br