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Em dia sangrento no Rio, 1º militar é morto sob a intervenção federal

21/08/2018 00H00

Rio de Janeiro – O cabo do Exército Fabiano de Oliveira Santos morreu baleado na manhã de ontem (20) durante uma operação das forças de segurança nos complexos de favelas do Alemão, Penha e Maré, na zona norte do Rio. Ele foi o primeiro militar morto em confronto desde o início da Intervenção Federal na segurança do Rio, iniciada em fevereiro deste ano. O soldado Marcus Vinícius Viana Ribeiro ficou ferido sem gravidade e está internado no Hospital Central do Exército (HCE).
Sabe-se apenas que o cabo foi baleado no contexto da ação desta segunda, que contou 4.200 militares das Forças Armadas, 70 policiais civis, blindados e helicópteros. Segundo relatos de moradores, os tiroteios começaram já durante a madrugada de segunda.
No início da tarde o coronel Carlos Frederico Cinelli, porta-voz do Comando Militar do Leste (CML), informou que houveram cinco mortes dentro das comunidades. Com o soldado, portanto, o número de mortos na ação no Alemão, Penha e Maré passou para seis.

PRESOS
Segundo as forças de segurança, ao menos dez suspeitos foram presos nas operações -entre eles, seis foram detidos pelo Bope no Morro da Fé, no Complexo da Penha, após terem feito uma família refém. A principal hipótese, segundo os militares, é que os criminosos fizeram a família refém quando fugiam das tropas na operação. Nenhum morador feito refém se feriu. Cinelli lamentou as mortes de suspeitos, mas atribuiu os confrontos à "irracionalidade notória" dos criminosos de enfrentar as forças policiais.
Essa é a terceira operação em três dias no Complexo do Alemão, considerado o quartel-general da maior facção criminosa do Rio, o Comando Vermelho.

ABUSOS
Pelas redes sociais, moradores relataram tiroteios em diversas áreas das favelas. "São muitos tiros, helicópteros sobrevoando… Deus proteja os inocentes", escreveu um morador no Facebook. "Está em toda parte, o Exército já está no alto do morro", escreveu outra moradora.
Moradores também relataram abusos dos militares durante as operações. Celulares estariam sendo revistados e pessoas que compartilharam informações sobre a ação policial em aplicativos de mensagens estão sendo detidas como suspeitas.
Uma moradora relatou à reportagem da Folha de S.Paulo que homens estão revistando mulheres, numa prática irregular, e que é comum que moradores troquem mensagens sobre operações policiais por meio de aplicativos.
Ela explicou que o objetivo dos grupos de monitoramento por mensagem é que os moradores saibam em tempo real a situação dos conflitos e possam evitar ficar na linha de tiro.
Há relatos também de que policiais e militares entraram em casas sem mandado de busca.

INTERVENÇÃO
A intervenção federal na segurança do Rio completou seis meses na quinta-feira (16). A medida anunciada em fevereiro pelo presidente Michel Temer (MDB) ainda não conseguiu reduzir os homicídios, acumula o maior índice de mortes por policiais desde 2008 e tem retirado menos armas das ruas.
Desde que chegaram ao Rio, os representantes do governo federal também intensificaram as operações em favelas, sem comprar ainda os materiais prometidos às polícias com o R$ 1,2 bilhão liberado pelo Palácio do Planalto. Por outro lado, conseguiram reduzir os roubos de carga e de rua, e doações emergenciais de equipamentos.
Com a intervenção, na prática, as polícias, os bombeiros e o sistema penitenciário estão sob o comando federal, que nomeou interventor o general Walter Souza Braga Netto, do Exército. A medida ocorre paralelamente a uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) decretada por Temer em julho de 2017, que dá poder de polícia às Forças Armadas no estado também até o fim do ano.
A operação desta segunda-feira é o desfecho de uma série de ações conectadas realizadas pelas forças de segurança desde o último dia 14 com o objetivo de prender membros do crime organizado, segundo afirmou à reportagem uma fonte ligada à cúpula da intervenção.