Colunistas

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Do sagrado direito à vida versus suicídio anômico

21/09/2019 13H23


Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior

Lao Tse (velho mestre), grande sábio chinês, nasceu algumas décadas antes de Confúcio, mas ambos se conheceram e estudaram os mesmos escritos antigos chineses. Lao escreveu um único livro, cujo título é: Tao-te-King (Caminho e Virtude). O livro se tornou uma das maravilhas da literatura filosófica mundial. Tao é o caminho, o espírito, a força invisível e indescritível existente no universo. É o absoluto. O que está escondido, o que não tem nome, eu não sei seu nome, mas o chamo de Tao. É o máximo que se pode alcançar com nossa inteligência. Saber, que não se pode saber é o saber mais alto que se pode obter, diz Lao Tse. O Tao é a “lei das leis” e a “medida das medidas”. Afirma o filósofo que se seguirmos suas indicações, andaremos pelo caminho que nos leva à verdade, à virtude e ao verdadeiro sentido da vida.
O suicídio anômico resulta na falta de capacidade do indivíduo de conviver com as normas de uma sociedade e suas variações, o que acaba levando-o ao suicídio como uma alternativa de fugir da sua realidade.
A crise econômica é um fator agravante, que conduz algumas pessoas ao suicídio. Engana-se, quem pensa que só a pobreza leva o indivíduo ao suicídio, pois, a abundância de recursos têm o mesmo efeito. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde – OMS, há uma estimativa que terá 1,5 milhão de vidas perdidas pela prática do suicídio no ano de 2020, significando 2,4% no total de mortes. A OMS registrou que a tendência de mortes nos jovens, é maior em países que estão em desenvolvimento. A instabilidade financeira do indivíduo que ocupa altos padrões econômicos, gera grave consequência na vida psíquica e social, que encontra como saída o suicídio anômico. Paulo Lúcio Nogueira, ensina que o fator anômico é resultante de um desequilíbrio, que permite a pessoas em face de graves crises mudar bruscamente o seu modo de vida anterior. O suicídio anômico tem a sua realização em momentos de desordem na sociedade, quando há escassez de regras normais da sociedade, por isso, este é o tipo de suicídio mais comum que ocorre na sociedade moderna. Durkheim, assevera que a anomia é, portanto, em nossas sociedades modernas, um fator regular e específico de suicídios. Para Maria da Paz Manhaes ele é decorrente de uma modificação repentina da comunidade moral, da mesma linha de compreensão do suicídio egoísta, que denuncia uma desagregação da comunidade social. O suicídio anômico possui ligações com o suicídio egoísta. Nesses tipos de suicídio há um enfraquecimento do indivíduo perante a sociedade em que vive, que o leva a pensar que o fim da sua vida não trará comoção na sociedade.
Para Lao devemos nos concentrar no caminho e na virtude e afastar de nós de forma radical tudo o que nos atrapalha de receber em nosso interior o substrato que vem de Tao. Porém, não necessitamos de nos afastar da rotina diária, dos trabalhos e afazeres. Mesmo no incômodo da rotina diária, com a presença do Tao em nossas vidas nos sentiremos livres e fazendo parte da “Unicidade” que domina o céu e a terra. Assim, perceberemos, diz o filósofo, o quanto é relativo para a felicidade do ser humano a posse de bens materiais e o sucesso. Não que eles não tenham importância. Para a filosofia chinesa, todas as coisas da vida tem sua importância, assim também o trabalho e seus frutos. Tudo, porém, dentro da consciência de que a essência da vida humana não está alinhada a este mundo. O reino do sábio é seu espiritual, não o material, estipula ele. Naturalmente que tal princípio impõe implicações éticas em todas as áreas da vida social e pessoal.

Luís Irajá Nogueira de Sá Júnior
Advogado no Paraná
Professor do Curso de Direito da UNIPAR
iraja@prof.unipar.br